edição 93 - [sumário]

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CEO Brasileiro em primeiro lugar

Enquanto presidentes de empresas vivem um inferno astral nos Estados Unidos, seus pares por aqui são cada vez mais prestigiados. Entenda por quê

Por Anne Dias

Desde que a revelação de fraudes nos balanços de grandes companhias americanas abalou o mundo corporativo, a figura do CEO (chief executive officer, o mesmo que presidente executivo) perde prestígio nos Estados Unidos. Não pegou nada bem a atitude de muitos presidentes de empresas falidas de vender suas ações para embolsar alguns milhões de dólares enquanto suas companhias eram investigadas. Para piorar o inferno astral da principal figura das organizações, há ainda uma onda de questionamento, também nos Estados Unidos, sobre a capacidade técnica dessa turma. Daí, eles serem indagados por advogados e auditores sobre cada passo que dão. Até os salários estão caindo. A General Motors, que fechou 2005 com um prejuízo de quase 9 bilhões de dólares, já reduziu pela metade a remuneração de seu presidente. Mas será que por aqui acontece o mesmo? Para checar se os presidentes no Brasil estão mal na foto como lá fora, VOCÊ S/A conversou com headhunters, consultores e executivos. A conclusão é de que, por aqui, a história é outra: a fase é de contratações e de glória para muitos deles. Até o começo desta década, muitas multinacionais colocavam no topo da filial brasileira executivos importados da matriz. O consultor Gunter Keseberg, presidente da Keseberg Partners, consultoria de RH de São Paulo, lembra que até então as múltis estavam convencidas de que não encontrariam brasileiros preparados. Por isso, elas preferiam arcar com os custos de trazer um expatriado. Situação que deixou de ser a regra. É claro que os expatriados continuam vindo para cá, mas em quantidade muito menor e para ficar menos tempo. Quanto? Nada além de quatro anos, metade do período usual nos anos 80.

Com os estrangeiros ficando menos tempo no país, as oportunidades para os brasileiros surgem com mais freqüência. Mas as empresas de recolocação não fornecem números sobre a dança de cadeira de presidentes no país. Os consultores dizem apenas que o ano passado foi muito bom para quem está no topo da pirâmide. "Em 2005 tivemos um crescimento de 25% no recrutamento de CEOs, principalmente de brasileiros. Foi o ano mais agitado desde a década de 90, quando a internet estava na moda", afirma Denys Monteiro, sócio da Fesa, especializada em seleção de executivos, com escritório em São Paulo. Para este ano, alguns headhunters arriscam dizer quais setores devem ficar mais agitados à procura de novos presidentes. São eles: indústria farmacêutica, consultorias, telecomunicações e companhias voltadas para o consumo de massa.

Alguém pode imaginar que, pelo fato de um CEO no Brasil custar menos à corporação do que no mercado americano, haja uma tolerância maior dos acionistas com o executivo em território tupiniquim. Por isso, eles estariam tão em evidência. Mas não tem nada disso. "O CEO no Brasil está em alta por competência mesmo", diz Gunter. É claro que a remuneração no país é menor do que a de um estrangeiro. Em uma grande empresa, com faturamento anual de 1 bilhão de reais, o salário do presidente pode girar em torno de 1,5 milhão a 2 milhões de reais por ano. Some-se a isso o bônus, e a renda pode dobrar. Nos Estados Unidos, um CEO pode receber 2 milhões de dólares por ano, e até cifras maiores. A diferença está nos benefícios. Aqui, um presidente tem carro com motorista, cartão de crédito corporativo e um polpudo plano de previdência privada. Lá fora, a tendência é a redução dos benefícios fixos. A onda por lá são os bônus por desempenho, que elevam muito o ganho de quem está no comando.

Assim como no exterior, o CEO no Brasil tem de entregar o que se compromete a fazer, independentemente do seu bônus. A diferença é que por aqui os principais homens e mulheres de negócios fizeram a lição de casa para ganhar prestígio gradativamente. Eles buscaram formação e especialização de primeira linha. Antonio Maciel, da Ford, tem, além da graduação em engenharia mecânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o curso de especialização em equipamentos para a indústria petrolífera, também pela UFRJ. Outros, como o presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, têm uma visão estratégica de dar inveja (veja quadro Gangorra Corporativa). Antonio e Roger fazem parte de um time de profissionais que acompanham tudo o que acontece no mundo dos negócios, no Brasil ou em outros países. "Essa é uma característica dos brasileiros, que fazem questão de se manter informados sobre tudo", diz Darcio Crespi, sócio e diretor-geral da Heidrick & Struggles, uma das maiores consultorias internacionais na área de recrutamento, com sede em São Paulo. "Nos Estados Unidos, a maioria dos profissionais está atenta somente ao que acontece no seu próprio país."

Além disso, os especialistas creditam a boa fase à capacidade dos CEOs brasileiros de apresentar bons resultados no gerenciamento de pessoas e de crises. Em algumas áreas, em que o país é referência mundial, os profissionais locais já são de longe os mais cotados. "Isso acontece numa dimensão maior em segmentos como mineração, siderurgia e agricultura", afirma Silvia Sigaud, sócia da Korn/Ferry, empresa de seleção de executivos. Outra questão que deve ser levada em consideração é a facilidade criada pela internet para a troca de informações entre matriz e filiais que estão a quilômetros de distância. "Não existe mais a necessidade de mudar um alto executivo de endereço. Reuniões e decisões podem ser executadas pela rede", diz a advogada tributarista Elisabeth Libertuci, que atende expatriados há quase 20 anos.

O Brasil está tão bem para CEOs que muitos profissionais saem daqui e viram presidentes em outros países. Foi o caso do engenheiro químico Renato Cantarelli, de 57 anos. Ele fez carreira n ponto final a Unilever brasileira, mexicana e no escritório de Nova York. Em abril do ano passado, Renato assumiu a empresa no Chile. "Os brasileiros dificilmente perdem o controle da situação. Hoje, quem tem capacidade de se adaptar rapidamente, toma decisões e entrega resultados faz a diferença", afirma Renato. E o reconhecimento é mundial. Em uma pesquisa com 600 formadores de opinião de 65 países feita pela empresa multinacional de relações públicas Burson-Marsteller, o brasileiro Carlos Ghosn, presidente da Renault, foi considerado o sétimo CEO mais admirado do mundo. O primeiro da lista é o americano Bill Gates, da Microsoft.

Toda essa boa fase não significa, porém, que a vida dos CEOs brasileiros esteja fácil. Como já se sabe, quem não der retorno, ou seja, não atingir as metas estabelecidas pelos acionistas, estará fora do jogo. Simples assim. Hoje, o tempo médio de permanência de um presidente em seu posto é de cinco anos. Há 20 anos, ele não ficaria menos de dez anos na principal cadeira da organização, dando ou não lucro para a empresa. Essa mamata acabou, inclusive aqui no Brasil. Por isso, cada vez mais os presidentes buscam o aperfeiçoamento contínuo e arregaçam as mangas para mostrar trabalho, como qualquer outro funcionário.

Fonte: www.vocêsa.com.br