Julio Sergio Cardozo*
Há cerca de 40 anos, o professor canadense Marshall McLuhan, hoje
bastante esquecido, antecipava um cenário em que as relações
comerciais entre países se dariam por meio de um único mercado
desprovido de fronteiras. Cunhou, para descrever tal situação, o
termo ‘aldeia global’. Previsão que de fato se concretizou. Com a
interação dos mercados, todos os países se lançaram em uma
ofensiva internacional na busca de novas oportunidades para os
seus produtos e serviços. Neste cenário, conferir escala aos
negócios tornou-se condição básica de sobrevivência das empresas,
em seus próprios territórios e no Exterior.
A singularidade social, econômica e cultural, além do estágio
diferenciado de desenvolvimento de cada país, enriqueceu, todavia,
o debate em torno das políticas adotadas e da acomodação dos
interesses envolvidos. As prioridades nacionais são hoje
fundamentais para determinar o funcionamento adequado e mesmo a
sobrevivência das empresas. A combinação de interesses
geopolíticos, comerciais, financeiros e diplomáticos exige
estadistas e lideranças de vanguarda. No Estado e nas empresas. E
o valor da liderança é que faz a diferença entre resultados
financeiros que atendem aos interesses dos acionistas, o valor
social da empresa, de sua imagem e reputação.
Diante desse panorama, o líder empresarial assume um status cada
vez mais importante para o futuro empresarial. Suas competências
para lidar com situações adversas precisam ir além do domínio das
questões técnicas dos elos produtivos. O verdadeiro líder é aquele
que, em meio às mudanças de mercado e das relações políticas e
negociais dele advindas, entende o significado de uma gestão
corporativa eficiente nos dias atuais.
Aliás, o conceito de eficiência tem sido questionado a todo
instante. O executivo não é eficaz por natureza. Ele se prepara
continuamente para gerir, minimizar ou neutralizar quaisquer
acidentes de percurso. Qualquer funcionário, por sua vez, pode se
transformar em líder, com iniciativa, boa vontade, motivação e
coragem para lidar com imprevistos. Mas de qual líder estamos
falando? Do principal mandatário, detentor do poder de mandar,
verbo que em jargão corporativo está perdendo sentido. Arrisco-me
a prever que as empresas estarão, muito em breve, colocando em
xeque as atribuições antes delegadas ao CEO. Cada vez se tolera
menos o CEO que manda sozinho e toma decisões, muitas vezes, sem
ouvir os Conselhos de Administração.
E por quê? Pela simples razão de que o executivo moderno
representa a vontade de seus acionistas, consumidores e
funcionários, que cobrarão a prestação de contas das decisões – e
principalmente dos fracassos. Esse executivo da nova ordem mundial
deve aprender a agir como um gestor e conciliador das relações
profissionais e sociais que se formam dentro e fora do ambiente
corporativo.
Na fase da industrialização, o valor era basicamente representado
pelas máquinas. Na era da informação, o conhecimento tornou-se o
principal ativo e o diferenciador competitivo entre as companhias.
Por outro lado, o executivo que melhor desenvolve a liderança
plena é aquele que acrescenta à sua caixa de ferramentas, à sua
educação, atitudes de resposta para pontos relevantes à
organização, como capacidade de reação, reconhecimento e
comunicabilidade com os liderados.
É justamente nesse cenário global, por vezes instável, que os
verdadeiros líderes modernos revelam vocação para transformar
crises em oportunidades. Isso porque obtiveram recursos
intelectuais, emocionais e materiais que transformam um pacote de
boas intenções em vantagens competitivas, calcadas em uma
mentalidade ética, moral e responsável.
* Julio Sergio Cardozo é presidente da Ernst & Young América
do Sul