Inovação Big Brother. Fuja dela.
 

Imagine o seguinte: um jovem procura você em busca de orientação sobre profissão, carreira, realização profissional, essas coisas... Ele quer saber o que deve estudar para ter sucesso. “Sucesso”, como normalmente usamos o termo, tem sempre a ver com os caminhos que o dinheiro tende a percorrer na economia. Eu digo a ele que as carreiras de sucessos que o futuro guarda, estarão cada vez mais vinculadas à inovação definida à lá Clemente Nobrega: habilidade de gerar dinheiro novo fora do molde usual. Não estou considerando carreiras mais vocacionais - como ciência pura ou artes - porque nosso jovem não tem nenhuma inclinação definida. Ele quer investir pragmaticamente num futuro delineado de modo muito simples: onde estará o dinheiro?

Vamos combinar: inovação é sobre dinheiro mesmo, não sobre qualquer outra coisa. Tem gente que não gosta dessa maneira de falar; acha que “dinheiro”, por alguma razão, soa mal. Prefere falar em “geração de valor econômico agregado” ou “captura de ganhos marginais de produtividade” , etc... Essas coisas significam simplesmente isso: dinheiro. Posso continuar falando em português mesmo? Eu encontro jovens “pragmáticos” assim todo dia, e sempre sou confrontado por esse tipo de pergunta em minhas palestras em universidades. Não estou inventando o tipo não, ele existe.

Bem, então meu ponto de partida é prático. O que eu vier a dizer pode influenciar o futuro daquele jovem.

Dentre as seguintes duas opções, qual seria a mais útil? Qual a que mais provavelmente faria um efeito positivo na vida dele?

a) Você o aconselha a estudar a vida e obra de Steve Jobs ou Bill Gates ou dos fundadores do Google, e-Bay, You Tube, Skype etc... O sucesso desses hiper-milionários, sua influência, seu glamour e espírito romântico, parece indicação clara de que eles têm algo que vale a pena tentar entender e imitar. Todo mundo nessa turma criou coisas geniais - produtos ou serviços que agitaram seus mercados - ou inventaram mercados novos. Todos fizeram isso trabalhando solitariamente (em garagens, segundo a lenda usual) tendo apenas uma idéia, um sonho, ou curiosidade a perseguir. Tente ser um deles! A tecnologia abre portas incríveis; há milhões de caminhos a desbravar. Só depende de você.

b) Você os aconselha a estudar a performance de empresas como South West Airlines, Wal Mart, Dell, NOKIA, Toyota, Zara, CEMEX, British Petroleum e outras. Poderia mesmo começar estudando uma tremenda inovação dos anos 1920: a forma pela qual a General Motors se organizou como empresa. Uma coisa tão criativa que a levou a bater a Ford, que havia inventado o conceito de carro para as massas duas décadas antes. A Ford tinha inovado por meio de um processo para fazer caros bons, bonitos e baratos. A GM a superou (inovando em cima da inovação da Ford) criando uma organização capaz de produzir vários tipos de carros, direcionados a vários tipos de público e introduzindo essa coisa chamada marketing no mundo do automóvel. A Ford não fazia nada isso.

O fato é o seguinte: se aceitamos minha definição de inovação (dinheiro novo + quebra do molde), então as empresas do ítem (b) têm lições muito, muito, muito mais úteis a dar do que as do item (a).

Quer dizer algo de útil àquele jovem? Esqueça Steve Jobs.

Procure inovadores mais a nosso alcance. Inovação à lá Jobs e seus “parceiros de garagem” é para poucos. Pouquíssimos.

As empresas da lista (b) são as que oferecem lições aprendíveis por PESSOAS COMUNS. Como vamos ver em outros artigos, as inovações que elas praticam, além de gerarem muito mais dinheiro, são também mais codificáveis - podem se transformar em saberes ao alcance de muita gente. Que absurdo é esse de achar que inovação é só Google, iPod, ou Skype? Num país como o Brasil, o que vai direcionar a inovação (dinheiro! dinheiro!!) são atividades relacionadas à VELHA ECONOMIA, como varejo, construção civil, energia... Por quê? Duas razões: é nessas coisas que estão os maiores potenciais de ganhos de produtividade e são elas que empregam mais gente. O crescimento do Brasil TEM que passar por inovações nelas! Esse negócio de “espírito do Silicon Valley”, empreendedores-criando-coisas-geniais-insanelly great-solitariamente-em garagens, é pura idealização romântica. ESSAS COISAS SÓ DÃO DINHEIRO PARA UMA MINORIA ÍNFIMA DE PESSOAS GENIAIS. Não é possível replicar o sucesso de Silicon Valley fora dos EUA. Não existe nada análogo (em tecnologia) fora do contexto cultural dos EUA (eu ia falar sobre essa coisa de cultura hoje, mas resolvi deixar para um artigo adiante dada a enxurrada de comentários sobre meu artigo anterior - “Por que temos de nos livrar de Steve Jobs”).

E mais ainda, pode anotar: nem nos EUA são as inovações “tipo Steve Jobs” que movimentam a economia ($$). O que a movimenta são aumentos de produtividade em atividades da velha economia. Se estamos falando de dinheiro e não de charme, então está claro qual deve ser o conselho para aquele jovem.

Eis o “segredo sujo” do mundo da inovação: o tal “inventor solitário na garagem” é ótimo como personagem de um enredo fantástico; é uma fantasia equivalente à do super-herói que tem atributos que ninguém tem, mas é péssimo para nos inspirar a ganhar dinheiro.

Dê uma olhada nas dez maiores empresas do mundo em 2006 (dados do primeiro semestre). Você vê varejo (Wal Mart), vê indústria automobilística (Toyota, GM), vê petróleo e gás (todas as outras). Engraçado... Tudo velha economia. Onde estará aquele pessoal da garagem? Repare a Toyota. Mesma receita da Daimler Chrysler, mas lucro mais de três vezes maior. Nosso assunto é dinheiro não é? A Toyota vai se tornar a maior montadora do mundo este ano batendo a GM e a Ford (que depois da publicação desses dados despencou para um prejuízo de mais de 12 bi de US$ ano passado). O segredo da Toyota? Inovação. Mas não inovação “de garagem”, inovação que conta. Prometo explicar adiante.

Todas as empresas da lista (b) são inovadoras. Grandes inovadoras. Todas têm gerado toneladas de $$ novo, mas suas "quebras de molde" não dependem de personalidades geniais acima da média, como Steve Jobs. Elas dependem de processos de negócio que podem ser estudados e aprendidos por pessoas não geniais como você, eu e aquele jovem.

Todas as empresas da lista (b) praticam o mesmo tipo de inovação nada genial, mas altamente efetivo. Como eu já disse, a inovação deles, ao contrário das empresas da lista (a), é codificável e essa é a boa notícia! Todo mundo pode aprender a disciplina da inovação à lá Wal Mart, Dell, Toyota...

O mundo inteiro aplaude (com toda justiça) os Steve Jobs e Bill Gates da vida. Acho esses aplausos ok vindos de tablóides, revistas tipo “CARAS” e tal... Tudo bem para quem quer saber mais de fofoca do que de aprender algo. Culto à celebridades, voyeurismo Big Brother sem compromisso, prazer em olhar, não em fazer - não são pecado, são frivolidades. Tem gente que gosta, mas não dá para aconselhar aquele jovem a ir por aí, dá?

Bolas, porque temos de estabelecer como parâmetro de sucesso, exatamente o que é necessariamente para pouquíssimos! Provavelmente não é para você, leitor! Sem ofensa. É a estatística que diz. A média das pessoas é média, não genial. Por que ficar deprimido comparando-se com a exceção? Você provavelmente é médio, então esqueça aquele guru da auto ajuda (aquela enganação de “universo que conspira a seu favor”) e compara-se com a média! Esquece a tal garagem e vá estudar, cara!

FAZ MAL essa mentalidade que associa inovação a líderes-geniais –trabalhando-solitariamente-e-lançando-produtos-isanelly great-que-vão-mudar-o-mundo. Faz mal porque nos desvia daquilo que está ao nosso alcance e nos dirige para uma fantasia voyeurística. Limitar inovação ao que Steve Jobs faz seria o mesmo que achar que todo físico para ser competente tem que fazer o que Einstein fez.

O que é útil é ter uma resposta à pergunta: como aprender a fazer inovação? Essa é a pergunta de um bilhão de dólares. Ela é equivalente a: como eu aprendo a praticar medicina, ou engenharia, ou direito? Resposta: estudando. Sim. Inovação, para ser útil, tem de ser algo que NÓS FAÇAMOS não algo que nos excite vendo OUTROS FAZEREM. Contemplar voyeuristicamente o processo inovador da Apple, é algo de uma inutilidade avassaladora para aquele nosso jovem. Inovação tem que ser uma disciplina. É isso. Vou propor em futuros artigos, que paremos de falar em “administração de empresas” e passemos a falar em “gestão da inovação” naquele sentido que você já sabe: dinheiro novo. Antes, quero cumprir a promessa do artigo anterior e falar da importância da cultura para a inovação. O que faz a Apple ser genial é sua cultura. É o mesmo que faz o Wal Mart ser genial ou a Toyota ou... O líder é apenas o manipulador da cultura. Cultura significa simplesmente... bem, vou interromper aqui, se não fica longo demais. Daqui a 15 dias eu completo. Desta vez falo mesmo da cultura como arma competitiva, prometo.

* Clemente Nobrega - 29 de janeiro de 2007.

- Um argumento em favor da velha economia como propulsora do crescimento e do aumento da riqueza (inovação) está em: -“The Power of Productivity”- McKinsey Quarterly 2004, nº2 . Disponível gratuitamente em: http://www.mckinseyquarterly.com/article_page.aspx?ar=1423

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janeiro de 2007