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Doutorado
País tem mais doutores, mas não há empregos
No ensino superior, doutor é o que menos tem vaga no quadro
docente
RENATA DE GÁSPARI VALDEJÃO
Colaboração para a Folha
No momento em que a Capes anuncia que o Brasil atingiu a meta de
formar 10 mil doutores ao ano em 2006, muitos titulados buscam espaço
no mercado. O país está a menos de meio caminho do objetivo estipulado
no Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG 2005-2010): formar 16 mil
doutores por ano a partir de 2010.
Mesmo assim, está longe do padrão mundial. Especialistas afirmam que
nossa produção científica (1,8% do total mundial) precisaria dobrar
para alcançar a média de países como Canadá e Itália, que, em 2005,
detinham, respectivamente, 4,8% e 4,4%, segundo a Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (no topo, os EUA, com 32%).
Para dobrar o número de cientistas no Brasil, seria necessário manter
a taxa atual de formação de doutores por mais duas décadas, calcula
Otaviano Helene, professor da USP e ex-presidente do Inep (Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). A
questão é saber se o país pode absorver esses titulados.
A maioria deles -70%- vai procurar emprego em universidades, segundo a
Capes. O restante ruma para administração pública (10,9%), institutos
de pesquisa (8,3%) e iniciativa privada (número incerto).
O problema, diz Helene, é que faltam vagas. Os números confirmam: do
total de docentes do ensino superior, 22,7% são doutores, 35% são
mestres, e 41,2%, especialistas ou graduados, segundo o Inep, órgão do
Ministério da Educação.
Para Helene, a legislação tem parte da culpa. "A Lei de Diretrizes e
Bases da Educação não exige a presença de doutores no curso
universitário. As públicas têm porque fazem pesquisa. Mas as privadas
contratam para ter suas pós aprovadas pela Capes e depois demitem."
O artigo 52 da lei, inciso II, diz que as universidades devem ter "um
terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de
mestrado ou doutorado". O texto, portanto, não se refere às
instituições não universitárias (como faculdades e centros
universitários) e faculta às universidades contratar mestres ou
doutores.
Escondendo o título
Como os doutores ganham mais, ficam "caros". "Tem gente escondendo o
título de doutor para poder trabalhar", afirma Celso Napolitano,
presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo. "As
universidades proliferam, mas dizem ter problemas financeiros." O Inep
contabiliza 2.141 escolas de ensino superior privadas e 257 públicas.
"Isso [demissão injustificada de doutores] acontece pouco. Quando
ocorre, somos alertados", diz o diretor de avaliação da Capes, Renato
Janine Ribeiro. Para ele, universidades que contratam doutores só para
a avaliação se "queimam". "Ao término do triênio [período de validade
da avaliação], são descredenciadas."
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