Cidadania, política e sindicalismo no contexto

histórico do nascimento das Relações Públicas

Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

Índice

1 Introdução 1

2 O sindicalismo norte-americano no

século XIX: uma sociedade em tranformação

2

3 A consolidação dos movimentos sindicais

4

4 A mobilização do patronato: políticas

e estratégias anti-sindicais 6

5 A primeira metade do século XX e

a consolidação das Relações Públicas

como atividade profissional 8

6 Conclusão 14

7 Referências bibliográficas 16

Resumo

Este trabalho aborda uma reflexão sobre o

contexto histórico do nascimento da profissão

de Relações Públicas com o objetivo

de compreender os fatores responsáveis pelo

seu surgimento no final do século XIX. A

análise do cenário político, social e econômico

da época é extremamente importante

para compreender a verdadeira natureza e

função da atividade de Relações Públicas.

Por fim, aborda uma reflexão a respeito do

Doutor em Comunicação e Cultura e Professor

Adjunto do Curso de Relações Públicas da Universidade

Federal da Paraíba.

início da atividade no Brasil, ressaltando as

situações históricas da sua chegada no país e

as implicações daí decorrentes no exercício

da profissão.

Abstract

This paper reflects upon the historical context

of the birth of Public Relation. The aim

is to understanding the factors that leaded to

the constitution of this discipline at the end

of XIX century. The analysis of the political,

social and economics aspects of that time are

of extremely importance to apprehend the

true nature and function of Public Relation.

At the end, it presents a reflection about the

beginning of this activity in Brazil, pointing

out the historical situations that marked its

foundation in the country and the unfold implications

in the professional practice.

1 Introdução

É importante frisar que a profissão de Relações

Públicas tem seus fundamentos ligados

ao fenômeno da opinião pública. Somente

numa sociedade democrática, onde a opinião

pública assume papel preponderante no processo

político, haverá a devida importância

à atividade profissional das Relações Públicas.

Necessariamente, numa democracia, há

2 Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

que se estabelecer o diálogo, o consenso, a

ausculta aos diversos grupos e movimentos

sociais.

A opinião pública é um fenômeno típico

dos albores da modernidade, alicerçada nas

idéias iluministas. De fato, tal opinião pública,

revigorada nos espaços públicos do

início da modernidade, cumpriu seu papel

de fórum democrático; espaço onde a sociedade

civil se aglutinava para questionar, debater

e refletir os rumos da administração pública,

dos direcionamentos e apostas políticas

dos governos dos Estados-Nação dos séculos

XVIII e XIX.

É justamente o fortalecimento da sociedade

civil, com suas conseqüentes necessidades

de discussão de temas relevantes e

de mobilização política, que vai abrir espaço

para o surgimento da atividade de Relações

Públicas, demonstrando assim, o caráter

eminentemente político das RP’s. Tornase

imprescindível, destarte, proceder a um

minucioso cotejo entre os fatos históricos

significativos dos EUA, no século XIX, e

a cronologia da evolução das Relações Públicas,

tendo em vista proporcionar uma reflexão

profícua a respeito dos determinantes

políticos, econômicos, sociais e culturais que

viabilizaram o surgimento dessa nova profissão.

Nesta cena história, a luta de classes, o

movimento sindical e as associações patronais

e o desenvolvimento do capitalismo monopolista

integram um capítulo essencial e

imprescindível para conhecer a gênese da

profissão de Relações Públicas naqueles Estados

Unidos do século XIX.

Por fim, é necessário empreender uma

análise da profissão na atualidade a partir do

enriquecimento que tal contexto de seu nascimento

nos lega. Numa época de crise da

política, fragmentação do sujeito, declínio

dos sindicatos e da opinião pública, o que

podermos ter como perspectiva da profissão

de Relações Públicas? Sem dúvida alguma,

a reflexão sobre o surgimento das RP como

profissão torna-se extremamente importante

para entender a evolução conceitual, a fundamentação

ética, os pressupostos teóricos e os

paradigmas dessa profissão desde a sua origem

até nossos dias.

2 O sindicalismo

norte-americano no século

XIX: uma sociedade em

tranformação

Os Estados Unidos foram o primeiro país a

industrializar-se fora do continente europeu,

contando com uma certa pujança industrial

já pelos idos de 1840. Tal processo foi facilitado

por diversos fatores responsáveis pela

consolidação dos EUA como nação. Dentre

eles, podemos citar os mais significativos

como o movimento expansionista americano

à época; a Guerra da Secessão e por fim

a grande onda migratória intensificada pela

chegada das hordas de irlandeses.

O movimento expansionista legou aos

EUA, na primeira metade do século XIX ,

os territórios da Flórida, Lousianna, Alaska,

Texas, Novo México, Califórnia, Utah, Arizona

e Nevada, sendo que os três primeiros

foram anexados pela via diplomática, mediante

o pagamento de altas somas de dinheiro;

já os territórios mexicanos foram agregados

pelo uso da força. Só nos três anos da Guerra

do México (1845-1848) mais da metade da

ex-colônia espanhola passou a fazer parte do

território americano.

No final da primeira metade do século

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Cidadania, política e sindicalismo 3

XIX formaram-se as primeiras grandes concentrações

de trabalhadores no entorno das

cidades-pólo do processo de desenvolvimento

industrial americano. Nesta época,

os EUA também receberam um significativo

contingente de irlandeses – além dos

costumeiros imigrantes de diferentes procedências

– que fugiam das grandes fomes

que assolaram a Irlanda no início do século

XIX, fato que acabou por fortalecer e ampliar

ainda mais o exército de reserva necessário

para a expansão do capitalismo industrial.

Paralelamente a toda essa conjuntura,

podemos citar também o enriquecimento dos

estados do norte, a partir da guerra da secessão

(1860-1865). Esta grande guerra civil,

com toda sua destruição, foi especialmente

decisiva para formar um mercado economicamente

unificado e guindar a nação americana

à condição de potência mundial.

A “conquista do oeste” também pode figurar

como um elemento desencadeador desse

processo industrial, uma vez que sinalizava

uma terra ainda inexplorada e abundante em

recursos, servindo também como elemento

inibidor de crises e reivindicações trabalhistas.

A expansão da fronteira americana (teoria

da fronteira) representava uma válvula

de escape, contribuindo para a cristalização

das condições sociais da época, com profundos

reflexos nas questões trabalhistas. Segundo

a Teoria da Fronteira, as fronteiras a

serem conquistadas representavam a possibilidade

do direito de propriedade a terra, inibindo

crises sociais e manifestações revolucionárias

de transformação social. 1

1 Sobre a Teoria da Fronteira, ver FARAGHER,

John Mack. Rereading Frederick Jackson Turner:

The significance of the frontier in American history.

New Haven/Connecticut: Yale University Press,

1999.

A questão da propriedade é decisiva para

delinearmos o perfil dos trabalhadores americanos

desse período histórico. Eles almejavam

alcançar a condição de proprietários,

segundo o ideário da livre iniciativa, pois o

imaginário da época estava perpassado pela

idéia da posse da terra, da aventura bemsucedida

de tornar-se proprietário, o que, por

sinal, delineou uma forte rejeição aos monopólios,

cartéis e trustes. Neste cenário havia

uma forte rejeição contra toda e qualquer organização

do capital que pusesse em risco a

esperança da distribuição de terras. Não devemos

esquecer que a filosofia de vida americana

postulava a salvaguarda dos ideais liberais

da livre iniciativa, da economia competitiva

e da igualdade de possibilidades para

todos.

Tal perfil fez com que o movimento sindicalista

americano fosse destituído de uma

forte mobilização com o objetivo de lutar por

uma transformação social profunda, capaz

de dar alento aos grandes ideais comunistas,

tão presentes e cada vez mais fortes à época.

Na verdade, até o período em que eclode a

crise de 1929, fatores como a grande heterogeneidade

da classe operária americana, a

forte imigração, a abundância de terras livres,

os ideais burgueses do direito à propriedade

e o surto de prosperidade advindo de

um desenvolvimento econômico jamais visto

antes, refrearam as reivindicações da classe

operária americana, a despeito do que ocorria

na Europa nessa mesma época – palco de

avanços dos movimentos operários após as

revoluções liberais no período compreendido

entre 1800 a 1848 – onde os princípios do socialismo

direcionaram reformas econômicas

e sociais profundas contra a desigualdade social.

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4 Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

Na verdade a Europa já presenciava, neste

período, a insurreição dos trabalhadores contra

as péssimas condições de vida decorrentes

de crises econômicas, desemprego, falta

de liberdade civil e política. Exigiam liberdade

de imprensa, democracia, sufrágio universal,

política social e direitos trabalhistas.

Não é por acaso que o Manifesto Comunista

– texto basilar da teoria marxista – foi

publicado pela primeira vez, no mês de fevereiro

de 1848, em Londres. Este documento

foi concebido inicialmente para atuar como

um programa teórico da Liga dos Comunistas,

na Inglaterra. Contudo, ele se constituía

num verdadeiro programa para a organização

mundial dos trabalhadores de diferentes

países. Tal função fez com que o

Manifesto possuísse um caráter propagandista,

persuasivo, visando conscientizar, esclarecer,

advertir e conclamar os operários de

todo o mundo para a necessidade de combater

as injustiças sociais oriundas do capitalismo.

Segundo LASKI, “seu objetivo é insistir

na solidariedade internacional, ser vanguarda

em cada país, com seu profundo conhecimento

teórico do movimento da história,

cooperando na conquista do poder pelos

trabalhadores”.2

É importante salientar que a Europa de

1848 vivia uma grande onda revolucionária,

com manifestações de operários em quase

todos os países, conseqüência das crises advindas

da crescente concentração do capital

e da intensificação da exploração do trabalho.

Tal panorama acirrou os choques entre

burgueses e proletários, resultando numa

maior consciência e poder de mobilização

dos operários.

2 LASKI, Harold J., O manifesto comunista de

1848. Rio de Janeiro: Zahar, 1967, p. 31.

Esse famoso Manifesto é traduzido pela

primeira vez nos Estados Unidos em 1871,

convocando os operários americanos a

integrarem-se no grande projeto marxista:

“proletários de todos os países, uni-vos”.

Chegava finalmente à América o “fantasma

do comunismo”, que até então rondava a Europa.

3 A consolidação dos

movimentos sindicais

As primeiras traduções do Manifesto Comunista

nos Estados Unidos surgem a partir de

1871. É desta data, também, a publicação

do Manifesto no semanário Nova Iorquino,

de língua francesa, Le Socialiste. Percebese

que a divulgação do Manifesto foi ampla,

como foi o planejado desde a própria elaboração

do documento. O acesso a tais idéias

pelas massas, fez surgir novas perspectivas

para a compreensão da sociedade daquela

época. Segundo Mota, “o Manifesto Comunista

(1848), de Marx e Engels, indica a mudança

de concepções abstratas e utópicas sobre

a sociedade, para outras mais concretas e

combativas”.3

No último quartel do século XIX, o movimento

operário cresceu no mundo todo,

haja vista a primeira experiência concreta,

ou “batismo de fogo”, de poder político dos

trabalhadores, fato ocorrido na França com a

famosa revolução proletária denominada Comuna

de Paris, em 1871.

Nos Estados Unidos tal período foi marcado

por vários acontecimentos importantes

ocorridos no cenário trabalhista norteamericano.

Em 1869, foi fundada a Or-

3 MOTA, Carlos Guilherme. 1822: Dimensões.

São Paulo: Perspectiva, 1986.

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Cidadania, política e sindicalismo 5

dem dos Cavaleiros do Trabalho (OCT), primeira

organização trabalhista dos EUA que

se transformou, nos anos seguintes, numa

poderosa central sindical capaz de promover

um intenso movimento de massa, congregando

trabalhadores de diferentes ofícios.

Seus associados chegaram a mais de 700 mil

em 1885. A Ordem foi sucedida pela Federação

Americana do Trabalho (FAT), fundada

em 1886, que refutou a idéia de um único e

grande sindicato, apostando na completa autonomia

dos diferentes sindicatos, cada um

deles possuindo sua constituição, seus regulamentos

e métodos de negociação.

É interessante notar que a Federação Americana

do Trabalho possuía, como um dos

seus princípios básicos, a mobilização da

opinião pública, visando torná-la favorável

para com sua causa: “Os sindicatos devem

cultivar a opinião pública com o objetivo de

se tornarem mais aceitáveis para a economia

e a sociedade americana”.4

Este ano de 1886 também se tornou emblemático

devido à famosa greve pela jornada

de 8 horas de trabalho, mobilização esta

que obteve êxito em todo o país, “exceto

na cidade de Milawaukee, perto de Chicago,

onde a polícia interveio contra os operários

(...), matando vários trabalhadores”5.

Este acontecimento marcou a história do

sindicalismo mundial, pois levou o Congresso

Americano a aprovar, em 1889, a lei

de regulamentação da jornada de oito horas

de trabalho. Também, em honra aos mártires

de Chicago, o dia 1o de maio foi proclamado,

4 MARSHALL, F. Ray&RUNGELING, Brian. O

papel dos sindicatos na economia norte-americana.

Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1980, p. 49.

5 Ver http://www.novomilenio.inf.br/festas/trab01.

htm, capturado em 08.02.2005.

pelo Congresso Operário Socialista de Paris,

em 1889, como o Dia Universal do Trabalho.

Não podemos deixar de citar, ainda, o ano

de 1877, marcado por uma grande depressão

econômica que resultou em cerca de três milhões

de desempregados. Neste ano ocorreu

também uma grande greve dos trabalhadores

do setor ferroviário que abalou todos os Estados

Unidos. O foco desta greve era a luta

pela expansão dos sistemas de negociações

coletivas e aumento salarial; já os anos de

1883 e 1885 assinalam duas grandes greves,

a dos telegrafistas e dos ferroviários, respectivamente.

Vale ressaltar que tais acontecimentos

abalaram toda a economia da nação norteamericana,

acirrando ainda mais as diferenças

sociais de classe, o que por sua vez acabou

por fortalecer e consolidar a ação e militância

dos sindicatos. É interessante notar,

para o objetivo do nosso estudo, que sindicalistas

e patrões procuraram exaustivamente

conquistar a opinião pública para que esta

aderisse às suas causas, mobilizando, para

isto, publicações de diferentes matizes ideológicos.

Surge, assim, a necessidade de desenvolver

um trabalho profissional direcionado

aos meios de comunicação de massa.

Ambas as partes tinham plena consciência de

que o êxito nos conflitos de classe dependia,

essencialmente, de um significativo apoio da

opinião pública. Algo tão bem previsto já no

próprio Manifesto Comunista.

Esse amadurecimento do movimento sindical

americano fez com que o centro das

mobilizações da classe operária migrasse

das negociações coletivas com empregadores

para as atividades políticas capazes de

mobilizar esforços e estratégias que melhorassem

as condições gerais de trabalho. A

luta pela revisão das legislações trabalhistas

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6 Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

é um bom exemplo desse novo direcionamento.

Para obter pleno êxito nessa empreitada,

era preciso atingir as massas; trabalhar através

da implementação de estratégias de comunicação

que fossem capazes de estender

a influência dos sindicatos para muito além

de seus quadros de associados, chegando a

atingir todos os diferentes segmentos da sociedade

americana.

4 A mobilização do patronato:

políticas e estratégias

anti-sindicais

Nos últimos vinte anos do século XIX as

grandes corporações (monopólios) assumiram

uma crescente importância no cenário

econômico norte-americano. As indústrias

do aço e as companhias ferroviárias capitanearam,

por sua vez, grandes mobilizações

anti-sindicais à medida que o sindicalismo

ganhava força.

Além da já existente Associação dos Diretores

de Estradas de Ferro, foi criada a Associação

Americana Antiboicote, em 1902,

constituindo-se em “uma entidade secreta

dos fabricantes” com o objetivo de atacar os

sindicatos. Por volta da mesma época foi

organizada a Associação Nacional dos Fabricantes

que tinha também a finalidade de

combater o poder de fogo dos sindicatos por

meio de medidas políticas e legislativas”.

A United States Steel Corporation, por

exemplo, foi uma empresa que se notabilizou

pela elaboração de estratégias destinadas a

desmobilizar os sindicatos, conforme esclarece

o relato de uma comissão investigadora

do Congresso na época:

A grande massa de trabalhadores sindicalizados

americanos na indústria de

ferro e aço compreendeu que era indesejável

nas usinas da U. S. Steel Corporation.

O processo usado para preencher

as vagas deixadas por esses trabalhadores

sindicalizados é interessante e importante...

Apelou-se para a Europa Meridional.

Hordas afluíram aos Estados Unidos.

(...). Eles não sabiam absolutamente

nada sobre a fabricação de ferro e aço,

mas foram o suficiente para lutar contra

os sindicatos trabalhistas6.

O período compreendido entre o final do

século XIX e o início do século XX foi marcado

por mais greves. Em 1897 ocorreu a

greve dos mineiros, em 1901 a dos mecânicos

e trabalhadores do aço e em 1904 a dos

matadouros. Frente a esse quadro de acirrada

crise, a classe patronal apoiou as transformações

nas relações de trabalho oriundas da Teoria

da Administração Científica, de autoria

de Frederick Winslow Taylor (1856-1915).

O taylorismo representou um duro golpe nas

conquistas sindicais ocorridas até então. Tal

método destituía o trabalhador daquilo que

lhe era mais caro: seu conhecimento e habilidade

profissional, fazendo-o perder o controle

técnico do processo de produção.

De fato, o objetivo maior do taylorismo

era fazer com que as tarefas laborais fossem

planejadas, classificadas e sistematizadas.

O processo de produção era, destarte,

escandido, fragmentado, divido em fases:

planejamento, concepção e direção. O

trabalho era agora “administrado cientificamente”,

segundo procedimentos de tempos

6 Câmara dos Deputados, 62o Congresso,

2a.Sessão, Relatório n° 1.127, pág. 128. apud

PETERSON, Florence. Sindicatos operários norteamericanos.

Rio de Janeiro: Agir,1953, p. 71.

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Cidadania, política e sindicalismo 7

e movimentos, que eram capazes de estipular,

sob a égide da linha ou cadeia de

montagem, um movimento a ser desenvolvido

num tempo ideal, devidamente cronometrado.

Esse irromper da padronização

das formas de produzir, bem como da conseqüente

avaliação, medição e controle dessa

produtividade, ficou exemplarmente imortalizado

nas cenas do filme Tempos Modernos,

de Chales Chaplin.

O taylorismo opera uma verdadeira separação

entre o trabalho intelectual e o trabalho

manual, o que acaba por diminuir a necessidade

manter igual número de trabalhadores

anteriormente envolvidos na produção, já

que ele os despoja das funções mentais que

consomem tempo, atribuindo tais funções a

níveis hierárquicos superiores. Tal fato, contudo,

não passou despercebido aos trabalhadores.

Os sindicatos acabaram por se mobilizar

diante da “gerência científica do trabalho”

na medida em que essas novas condições

de produção se tornaram generalizadas.

Como bem nos lembram Rago & Moreira

(1984), o discurso taylorista constituise

numa hábil estratégia de dominação social,

visando delinear o perfil de um trabalhador

dócil, alienado, apostando na mera

força física (o conceito de “homem boi” é

perfeitamente adequado nesse contexto) e na

fragmentação da classe operária, agora motivada

por premiações relacionadas diretamente

à produtividade individual. Tal realidade

minava qualquer incentivo à solidariedade,

consciência de classe, luta por direitos

coletivos. A produção individual passou

a ser a grande oportunidade para ter acesso

a uma melhor remuneração salarial, enfraquecendo

as negociações coletivas e as lutas

dos trabalhadores por legislações trabalhistas

mais dignas.

A legitimação do taylorismo, e mais tarde

também do fordismo7, estava justamente no

argumento da ciência e da técnica que eram

habilmente instrumentalizadas para servir

aos interesses da burguesia. “Esta operação

ideológica permitiu mascarar o conteúdo político

da técnica de uma maneira muito hábil,

ou seja, dissociando a questão da técnica da

questão da política de tal modo que ambas

aparecem como elementos independentes”.8

Essa desumanização do trabalho, que agiu

no sentido de subtrair a capacidade crítica,

a consciência, a cidadania, a luta por direitos,

tornando-o facilmente substituível e refém

dos grandes monopólios, foi duramente

combatida pelos sindicatos. A Federação

Americana do Trabalho fez guerra à administração

científica do trabalho. Em 1912,

por pressão dos sindicatos, houve um inquérito

parlamentar contra Taylor e não foram

raras as revoltas dos trabalhadores contra os

cronometristas e apontadores que vigiavam

cada atividade empreendida pelos operários.

Greves, entre 1911 e 1916, exigiram o cancelamento

de tais medidas. Não tardou para

que os novos operários semiqualificados ou

“taylorizados” engrossassem as fileiras dos

trabalhadores sindicalizados e começassem a

lutar por seus direitos. O número de sindicalizados

cresceu de 2 milhões, em 1910, para

5 milhões, em 19209.

7 O Fordismo, idealizado na década de 1910, por

Henry Ford, na sua fábrica de automóveis, a Ford Motor

Company, nos EUA, foi responsável pelo desenvolvimento

de uma tecnologia apropriada para o sistema

taylorista, delineando os princípios da produção

em massa, com a implantação da linha de montagem.

8 RAGO, Luzia M. & MOREIRA, Eduardo. F. P.

O que é Taylorismo. S. Paulo: Brasilense, 1984, p.

27.

9 Idem. p . 45.

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8 Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

5 A primeira metade do século

XX e a consolidação das

Relações Públicas como

atividade profissional

5.1 O nascimento da profissão:

de Vanderbilt a Ivy Lee

Embora alguns autores, como CHAUMELY

& HUISMAN10, considerem Ivy Lee como

o verdadeiro fundador das Relações Públicas,

devido ao fato do mesmo ser o fundador,

em Nova Iorque, do primeiro escritório mundial

de Relações Públicas, é consenso que

o início da profissão aconteceu quando William

H. Vanderbilt, filho do Comodoro Cornelius

Vanderbilt, pronunciou a famosa expressão:

The public be damned (O público

que se dane). A declaração, segundo Gurgel11,

teria sido feita, em 1882, a um grupo

de jornalistas de Chicago sobre o interesse

público a respeito de um novo ramal ferroviário

ligando Nova Iorque e Chicago. Vanderbilt,

diante do descrédito que sua declaração

produziu, tentou desmenti-la, em entrevista

posterior ao “New York Times”.

Tal ocorrência, longe de ser um acontecimento

pontual, é o reflexo da maneira como

os dirigentes dos grandes monopólios norteamericanos

se posicionavam frente à opinião

pública. Alguns desses grandes magnatas

eram John D. Rockfeller, magnata do petróleo,

J.P. Morgan, banqueiro, e o próprio Vanderbilt,

empresário do setor ferroviário.

Naquela época os Estados Unidos viviam

10 CHAUMELY, Jean. & HUISMAN, Denis. As

Relações Públicas. São Paulo: Difusão Européia,

1964.

11 GURGEL, João Bosco Serra. Cronologia da

Evolução Histórica das Relações Públicas. Brasília:

Linha Gráfica e Editora, 1985.

o grande problema dos monopólios. No caso

das estradas de ferro, alguns poucos grupos,

dentre os quais o liderado por Vanderbilt,

detinham a posse de quase todas os ramais

de estradas de ferro do país. Esse capítulo

da história econômica americana vê o modelo

de capitalismo, de cariz excessivamente

liberal, ser gradativamente submetido a um

maior controle do Estado, através de normas,

regulamentações e legislações, com o

objetivo de destituí-lo do seu perfil excessivamente

liberal e totalmente descompromissado

com os direitos e necessidades dos trabalhadores

e de toda a sociedade.

É importante cruzar e confrontar esses fatos

históricos com as datas mais importantes

que encontramos na cronologia da evolução

histórica das Relações Públicas. Henry Vanderbilt,

autor da famosa sentença “the public

be damned”, era um empresário do ramo

das estradas de ferro. Seu pai, o comodoro

Cornelius Vanderbilt, inagurou, em 1851,

quando a corrida do ouro rumo ao Oeste

americano estava na ordem do dia, uma linha

de transporte ferroviário unindo a costa do

leste à Califórnia. Após a Guerra Civil americana,

Cornelius expandiu o seu império a

ponto de obter o controle, em 1867, da New

York Central Railroad, chegando a ligar, via

estrada de ferro, Nova Iorque a Chicago, em

187312.

Em 1877, como vimos, houve uma grande

greve dos trabalhadores das estradas de ferro

com grande repercussão em todos os Estados

Unidos. Vinte anos depois, em 1897, “a

Associação das Estradas de Ferro dos Estados

Unidos empregou, pela primeira vez, a

expressão ‘Relações Públicas’ (Public Rela-

12 Ver http://www.infoplease.com/ce6/people/A085

0423.html, capturado em 16.02.2005.

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Cidadania, política e sindicalismo 9

tions), com o significado que hoje se dá ao

termo, no seu ‘Year Book of Railway Literature’

13. É preciso que não esqueçamos que

esse intervalo de tempo representa um período

histórico muito significativo no âmbito

econômico e social para os Estados Unidos.

As próximas décadas também estão repletas

de fatos ligados ao sindicalismo, como a

grande greve dos ferroviários de 1885 e a criação

da Associação Americana Antiboicote,

em 1902.

Como podemos ver, o nascimento das relações

públicas está inserido numa época de

bastante efervescência política, diretamente

ligada aos fluxos e contra-fluxos do movimento

sindical americano. Esta mobilização

da classe trabalhadora despertou toda uma

série de estratégias para mobilizar a opinião

pública, tarefa esta disputada também pela

classe patronal, que, de muitas maneiras, se

aglutinou e tomou medidas para organizarse

como classe, também com a preocupação

de granjear uma opinião pública favorável às

suas causas e interesses. Esta profissionalização,

em matéria de comunicação, tanto

do sindicalismo como do patronato norteamericano,

fez surgir as relações públicas

como atividade profissional.

O contexto histórico da sentença “O público

que se dane” revela uma sociedade atribulada

pelas lutas, reivindicações e arregimentações

da classe trabalhadora que reverberava

o slogan “proletários de todo mundo,

uni-vos”, proclamado pela Internacional Comunista

e descrito no Manifesto Comunista.

Este último, inclusive, é traduzido nos EUA

em 1871 – seis anos antes do fato considerado

marco inicial das Relações Públicas.

A grande importância, aqui, deve ser

13 GURGEL, Op. cit. p. 09.

dada à opinião pública. Percebe-se que

quando a sociedade civil americana começa

a organizar-se, surge a necessidade da profissão

de relações públicas. Tal atividade, que

tem como princípio, nesse período histórico,

persuadir a opinião pública, tornando-a favorável

a diferentes causas e princípios (trabalhadores

ou patrões), revela possuir um fundamento

claramente político. Surge como

fruto de mobilizações e reivindicações ocorridas,

essencialmente, na esfera política. O

que também não pode passar despercebido

é que este procedimento, inicialmente surgido

em alguns segmentos sociais específicos,

acabou, depois, por ser incorporado pela

própria esfera governamental.

Em 1903, um ano após o surgimento da

Associação Americana Antiboicote, Ivy Lee,

jornalista e publicitário, “despontou no cenário

norte-americano, escrevendo artigos para

jornais, como ‘press agent’ (agente de imprensa),

sugerindo um tipo de atividade para

relacionamento das instituições com seus públicos”.

14 Na verdade, não se trata de mais

uma mera atividade propagandística com a

finalidade de divulgar uma instituição, um

governo ou uma personalidade, mas sim de

traçar estratégias para relacionar-se com os

diferentes públicos, ainda que nesta fase inicial

da profissão tenha prevalecido uma orientação

calcada na prática do suborno e cooptação

da imprensa através do aliciamento

de muitos jornalistas dos grandes jornais da

época.

A história da atuação de Ivy Lee, como

profissional de Relações Públicas, está voltada

para as grandes empresas e para os mais

proeminentes magnatas daquela época. O

período compreendido entre 1903 e 1914 foi

14 GURGEL, Op. cit., p. 10.

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10 Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

marcado, nos EUA, por uma intensa campanha

contra o big business americano. Nesta

fase surgiram em cena os muckrakers15 (exploradores

de escândalos) que através de reportagens

e artigos em pequenos opúsculos,

revistas e jornais, denunciavam a corrupção

existente tanto no âmbito governamental

como no privado. As grandes empresas

eram acusadas da prática de monopólio, através

da formação de cartéis, com o objetivo

de barrar a livre concorrência; também havia

denúncias referentes ao pagamento da mãode-

obra com salários de fome e ainda a existência

de conluios entre empresas e governo

para salvaguardar transações escusas entre

ambos. Além disso, tais escândalos também

expunham à mostra os estratagemas utilizados

pelas grandes empresas para eliminar as

suas congêneres de menor porte: sabotagem,

dumping, formação de cartéis, trustes e consórcios.

Grandes escritores norte-americanos da

época, como Upton Sinclair16, Theodore

Dreiser, Lincoln Steffens, David Phillips,

Jack London e Ida Tarbell17, dispararam críticas,

em muitas de suas obras, contra os

magnatas da economia americana. Nesse pe-

15 A mesma denominação é válida, de uma forma

genérica, para revistas de forte apelo político, muito

afeitas a polêmicas, que tinham como objetivo defender

os interesses do operariado norte-americano daquela

época.

16 Autor da famosa novela The Jungle, de 1906,

denunciando as condições insalubres em que trabalhavam

os operários dos frigoríficos de Chicago.

17 Esta autora escreveu, também em 1906, The history

of the Standard Oil Co denunciando as improbidades

dessa empresa do ramo petrolífero, liderada

por John D. Rockfeller, fato que constrangeu o governo

americano (Theodor Roosevelt) a entrar na justiça

contra a Standard Oil Co., acusando-a da prática

ilegal de monopólio.

ríodo, as empresas ferroviárias18 foram as

mais atingidas por essa onda de denúncias,

bem à frente até mesmo das grandes companhias

financeiras e de petróleo. É justamente

nesta época que as empresas ferroviárias,

segundo Gurgel, organizaram uma

contra-ofensiva a essa onda de críticas, montando

uma “assessoria de imprensa e Relações

Públicas”, como foi chamada na época.

Outro importante feito de Lee foi, em

1906, atuar na George F. Baer & Associates,

tendo desempenhado um papel muito importante

durante uma crise originada a partir de

uma greve ocorrida numa indústria de carvão.

Nessa ocasião, Ivy Lee inaugurou a

etapa das Relações Públicas baseadas na máxima

de que “o público deve ser informado”,

um verdadeiro paradigma da atividade de RP,

baseado na sua “Declaração de Princípios”,

que determina o seguinte:

Este não é um Departamento de Imprensa

secreto. Todo nosso trabalho é feito às

claras. Pretendemos divulgar notícias, e

não distribuir anúncios. Se acharem que

o nosso assunto ficaria melhor como matéria

paga, não o publiquem. Nossa informação

é exata. Maiores pormenores sobre

qualquer questão serão dados prontamente

e qualquer redator interessado será

auxiliado, com o máximo prazer, na verificação

direta de qualquer declaração de

fato. Em resumo, nossos planos, com absoluta

franqueza, para o bem das empresas

e das instituições públicas, é divulgar

à imprensa e ao público dos Estados Unidos,

pronta e exatamente informações re-

18 Estas empresas, juntamente com aquelas dos ramos

de finanças, siderurgia e petróleo, lideravam o

ranking da concentração do capital nos EUA.

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Cidadania, política e sindicalismo 11

lativas a assuntos com valor e interesse

para o público19.

Em 1909 Ivy Lee tornou-se o responsável

pelo setor de “divulgação e propaganda” da

Pennsylvannia Railroad, empresa onde permaneceu

até 1914. Fica claro que a atividade

desenvolvida por Lee não pode ser considerada

uma “mera extensão” dos serviços específicos

da área da publicidade e propaganda.

Até mesmo porque o seu cunho é político;

trata-se de um métier preocupado em manter

um relacionamento satisfatório com seus

diferentes públicos. Tal ação é desenvolvida

de forma profissional, a partir da elaboração

de um conjunto de estratégias, previamente

planejadas, com o objetivo de elaborar toda

uma política de comunicação institucional.

Não se tratava de uma extensão ou desdobramento

da publicidade e propaganda, mas de

uma nova e específica atividade profissional.

Uma profissão que nasce em decorrência das

transformações ocorridas na sociedade americana,

mas especificamente na esfera política,

tendo como ponto de partida as lutas e

reivindicações do operariado.

Dando continuidade à trajetória de Ivy

Lee, merece registro o trabalho por ele prestado,

no ano de 1914, para a família Rockfeller.

Os Rockfeller estavam sendo detratados

pela imprensa norte-americana, em decorrência

dos maus tratos impingidos aos grevistas

em uma de suas empresas, a Colorado

Fuel and Iron Co. A estratégia de Lee foi trabalhar

a imagem pessoal de John Rockfeller,

através de ações de filantropia e benemerência,

o que culminou por notabilizá-lo como

grande filantropo perante a opinião pública.

Para alguns autores, tal fato representa o iní-

19 GURGEL, Op. cit. p. 12.

cio da preocupação com o papel social dos

negócios.

Finalizando, temos, em 1916, a abertura

da Lee & Harris & Lee, empresa de consultoria

de Relações Públicas, constituída e administrada

por Ivy Lee.

Esse cotejo entre o nascimento das Relações

Públicas e o sindicalismo americano –

do final do século XIX até a primeira metade

do século XX – revela que a gênese da

profissão encontra-se estreitamente relacionada

com os embates entre os operários e

grandes empresários – mais especificamente

aqueles que eram dirigentes de grandes companhias

de transporte ferroviário. Tal assertiva

se comprova com os fatos históricos

já aqui descritos e ainda com um acontecimento

que pode ser considerado como emblemático:

Em 1913, J. Hampton Baumgartner,

da Baltimore-Ohio Railroad, proferiu

uma conferência, na Virginia Press Association,

cuja temática versava diretamente sobre

Relações Públicas: “As Estradas de Ferro

e as Relações Públicas”,20 advertindo os empresários

do ramo a desenvolverem um trabalho

intensivo de relacionamento com seus

públicos através da imprensa.

Enquanto o sindicalismo se fortalecia e organizava,

tendo como meta conscientizar trabalhadores

e sociedade, o patronato desenvolvia

toda uma série de conhecimentos e

estratégias voltadas para garantir seus interesses,

como a criação de movimentos e associações

patronais e o financiamento de teorias

administrativas com a conseqüente elaboração

de técnicas capazes de implantar tais

pressupostos teóricos; Estas transformações

levaram as empresas da época a serem submetidas

a processos de reengenharia admi-

20 GURGEL, Op. cit. p. 14.

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12 Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

nistrativa, econômica, política etc. No bojo

de tais transformações, surgem as Relações

Públicas.

5.2 A crise de 1929 e a era

Roosevelt: as Relações

Públicas na esfera

governamental

O cenário político norte-americano na década

de vinte do século passado era tenso.

As idéias socialistas fervilhavam, não só

com a extensa divulgação do manifesto comunista

e das mobilizações sindicais em diferentes

nações mas também devido à eclosão

da Revolução Russa de 1917.

Observamos que durante o primeiro quartel

do século XX, ocorreu, nos EUA, “a solidificação

de vários grupos da ala esquerda,

como os sindicalistas, anarquistas e radicalsocialistas”.

21 Somado a isso, temos o lançamento

oficial do partido comunista americano

em 1920. Dentre as instruções da Internacional

Comunista estava a de fazer propaganda

do partido, das idéias marxistas e da

revolução.

Com a Crise de 1929, decorrente do colapso

da Bolsa de Valores de Nova Iorque,

os Estados Unidos enfrentaram turbulências

de toda espécie. As conseqüências do crack

da Bolsa nova-iorquina foram desastrosas;

basta mencionar que em decorrência dela

surgiram doze milhões de desempregados. O

governo entendeu que deveria tomar medidas

rápidas e eficazes para afastar a ameaça

de uma grave crise social, que poderia

desaguar em uma revolução, haja vista

a forte mobilização da esquerda americana

21 PETERSON, Florence. Op. cit. p. 82.

nesse sentido. Também a ascensão de regimes

totalitários, como aconteceu na Itália

e na Alemanha, constituiu-se em um outro

risco para a democracia americana.

Considerando todo este cenário, saber lidar

com a opinião pública da sociedade americana

tornou-se uma tarefa indispensável:

Com a grande crise de 1929, a informação

deixou de ser um luxo: tornouse

uma necessidade. Abraham Lincoln

tinha-o dito: “Com a opinião pública

nada pode malograr; sem ela nada pode

resultar bem”. Esse apelo à opinião

pública tornou-se especialmente urgente

pela existência de mais de doze milhões

de desempregados. Não é fácil recordar

de que uma revolução iminente tenha podido

ameaçar os americanos da década de

3022.

A década de 30 foi carregada de embates.

Socialistas e comunistas advogavam a

abolição do capitalismo23, agora com muito

mais poder de persuasão em face do estado

de crise. Contudo, a posse de Franklin Delano

Roosevelt, à presidência dos Estados

Unidos, iniciou a chamada Era Rooseveltiana

(1933-1945), período de intensas articulações

para garantir a sobrevivência da sociedade

americana, em meio à pior crise do

capitalismo em toda a história.

Várias foram as medidas adotadas por Roosevelt

através do New Deal (novo acordo),

na década de 30. Os ganhos trabalhistas

foram muitos durante o período de vigência

do New Deal. A disputa pela opinião

22 CHAUMELY, Jean & HUISMAN, Denis. Op.

cit. p. 12.

23 GALBRAITH, John Kenneth. O colapso da

bolsa, 1929: anatomia de uma crise. Rio de Janeiro:

Expressão e Cultura, 1972, p. 196.

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Cidadania, política e sindicalismo 13

pública norte-americana sinaliza importantes

vitórias para os operários americanos:

A maré antitraballhista começou a baixar

antes que se alcançassem as profundezas

da depressão. Em 1932, somente

três anos depois do Grande Pânico de

1929, o Congresso aprovou a Lei Norris-

LaGuardia, que tornou mais difícil para

os tribunais federais a emissão de interditos

contra organizações trabalhistas (....).

A opinião pública retirava seu apoio ao

big business, já que muita gente acreditava

que os empregadores eram quem tinham

causado a Grande Depressão da década

de 3024 .

O clima favorável para a organização sindical,

através de uma profícua legislação

nesse sentido, foi claramente observado nas

ações decorrentes do Novo Acordo, com

uma série de medidas tomadas à época, tais

como a legalização dos sindicatos e do direito

de greve; fixação do salário mínimo;

proibição do trabalho às crianças; jornada de

trabalho de 40 horas semanais; criação do seguro

desemprego; frentes de trabalho financiadas

pelo governo para absorver mão de

obra ociosa e, por fim, uma forte intervenção

do Estado na economia: legislação antitrustes,

protecionismo, moratória, privatizações

etc.

Além de todos esses procedimentos, diversas

estratégias e ações foram especificamente

direcionadas para viabilizar um diálogo

com a opinião pública. Foram organizados

os serviços de imprensa, nos principais

24 MARSHALL, F. Ray&RUNGELING, Brian. O

papel dos sindicatos na economia norte-americana.

Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1980, p. 58.

órgãos federais, somados à distribuição oficial

de credenciais aos redatores de jornais,

dando-lhes todo o direito de ter acesso irrestrito

às informações dos órgãos públicos. As

famosas “conversas ao pé do fogo”, através

da emissão semanal em cadeia nacional de

rádio, era também uma forma do presidente

prestar contas da atuação do governo perante

o povo americano. Houve ainda a criação das

press conferences, que aconteciam, em média,

250 vezes ao ano. Este trabalho era complementado

com a intervenção dos chamados

agentes especiais, funcionários do governo

destinados a esclarecer a opinião pública

através de contatos pessoais com os diferentes

setores da sociedade civil.

Neste período percebemos a incorporação

das atividades de Relações Públicas pela esfera

governamental. Justamente numa época

onde tornou-se fundamental estabelecer formas

de relacionamento, participação e diálogo

com diferentes setores da sociedade

americana; esta última cada vez mais articulada

e organizada, capaz de expressar-se

e informar-se via meios de comunicação de

massa. O jornalismo de denúncia, os movimentos

sindicais, os escritores defensores da

causa operária, as idéias socialistas, a crise

econômica mundial, a ameaça de uma revolução

comunista, o surgimento de governos

ditatoriais da Europa, a situação de convulsão

social que vivia a sociedade americana,

acabaram por solidificar e consolidar, a partir

da Era Rooseveltiana, a profissão de Relações

Públicas no âmbito governamental.

Vários momentos e fatos são esclarecedores

dessa filosofia de Relações Públicas

presente no governo Roosevelt. Houve, por

exemplo, uma farta utilização do lobby, intensificando

a pressão sobre o congresso,

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14 Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

através da mídia25. A era Rooseveltina foi

profundamente voltada para o walfare-state;

tentou, de diversas maneiras, estabelecer formas

de prestar assistência social aos mais carentes.

Tal ação, exercida de forma planejada

e atuando como parte integrante de toda uma

estratégia política, acabou por auferir, para

seu governo, uma boa aceitação por parte

do povo norte-americano: “O governo foi

incumbido de ajudar os necessitados e isso

ampliou a experiência de seus funcionários,

dando-lhes conhecimentos de muitos problemas

que antes estavam além de seu alcance;

criou uma sabedoria que podia ser posta a

serviço dos indivíduos”.26

Como podemos perceber, a sociedade civil

americana, já fortemente organizada, pressionava

o governo para atender suas reivindicações.

Era necessário ceder a estas pressões,

conhecer as necessidades sociais mais

iminentes, prestar contas das ações e medidas

governamentais. Tornou-se urgente e

prioritário lograr a aprovação popular com a

concretização de medidas que visassem atender

as demandas da população.

Esta forte orientação dialógica tornou-se

evidente, por exemplo, na política exterior

do governo Roosevelt, que pautou-se pelos

princípios do diálogo, informação, consenso,

entendimento e negociação. Um bom exemplo

disso foi a elaboração do plano de criação

da ONU e a elaboração da Carta do

Atlântico – salvaguardando o princípio de

autodeterminação dos povos –, somados à

renúncia da política de força na região do Caribe.

Houve ainda a fundação do Birô Intera-

25 FREIDEL, Frank Burt. Franklin D. Roosevelt: a

rendezvouz with destinity. New York: Little, Brown

and Company, 1990, p. 99.

26 WOODS, John A. Roosevelt e a América Moderna.

Rio de Janeiro: Zahar, 1693, p. 178.

mericano, destinado à aplicação da “política

da boa vizinhança”, voltada para a América

Latina e orientada através do princípio de cooperação

e solidariedade entre os EUA e os

países latino-americanos.

Muitos autores citam esse período como

uma época de grande “revolução das relações

públicas”, em decorrência da assimilação

da profissão pelo setor governamental,

o que contribuiu decisivamente para legitimar

a atividade de Relações Públicas. Prova

conteste de tal assertiva foi a publicação, no

ano de 1936, do livro intitulado Public administration

and the Public Interest, de autoria

de Pendleton Herring, registrado como o primeiro

livro sobre Relações Públicas governamentais27.

Pouco antes, em 1934, iniciouse

uma grande disseminação de cursos de

Relações Públicas nos Estados Unidos, fato

que só veio a fortalecer-se durante e após a

segunda guerra mundial.

6 Conclusão

Esta abordagem do nascimento das Relações

Públicas, considerando o contexto econômico,

social e político da época, é bastante

esclarecedora para que se possa estabelecer

com clareza a verdadeira natureza e função

das Relações Públicas. Percebemos que a

profissão nasce como resultado do fortalecimento

do movimento sindical, embalado

pela ideologia marxista, com todos seus diversos

matizes, algo tão em voga à época. A

sociedade civil fortalece-se, organiza-se e os

grupos sociais, frutos desse amadurecimento

político, começam a fazer valer sua cidadania;

cobram do governo seus direitos; denunciam,

através da mídia, os desmandos e

27 GURGEL, Op. cit, p. 21.

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Cidadania, política e sindicalismo 15

as práticas corruptas das quais o governo e

iniciativa privada articulavam em conjunto.

A opinião pública se fortalece, apoiada nos

meios de comunicação de massa.

Diante de tal panorama, era necessário desenvolver

habilidades voltadas para o entendimento,

a negociação, a relevância das opiniões

dos diferentes públicos. Era, assim,

cada vez mais difícil, para uma organização,

legitimar-se sem tais prerrogativas; afinal, a

era dos terríveis monopólios, dos patrões de

direito divino, da grande exploração dos trabalhadores

– por fraude ou diferentes tipos

de violência e corrupção – entrava em declínio.

A sobrevivência no mundo dos negócios

e o êxito nas administrações governamentais,

voltam seu foco para a questão da opinião

pública.

Na verdade, as relações públicas possuem

uma natureza e uma função política. Foram

graças aos embates, choques, oposições e resistências,

entre as diferentes classes sociais,

que surgiu o despertar de operários, empresários

e governo para o investimento em políticas

e ações de comunicação. Estava, assim,

firmado um ambiente propício e adequado

para o nascimento da profissão de relações

públicas.

É interessante notar que, no Brasil, as Relações

Públicas surgem inicialmente voltadas

para a administração pública, amparada

por decretos-lei que instituíam serviços de

informação, divulgação e publicidade de vários

órgãos públicos. Em pleno vigor do governo

de Getúlio Vargas, na década de 40,

o objetivo maior dos setores ligados à área

da comunicação era elaborar e utilizar técnicas

de persuasão que tinham como finalidade

assegurar o êxito de práticas demagógicas,

tendo em vista a perpetuação da ditadura

no poder pela via de uma intensa publicidade

governamental.

A realidade brasileira era bastante diversa

da situação de efervescência política, econômica

e social vivida pelos Estados-Unidos,

quando do nascimento das Relações Públicas.

Tal fato marcou sobremaneira as Relações

Públicas no Brasil. A formação do conceito

da profissão, em nosso país, reflete esse

momento inicial de muitas maneiras. Por

não estar atrelada a uma prática democrática

– e às conseqüências políticas, sociais

e econômicas daí decorrentes – as Relações

Públicas, já no seu nascedouro, não foram

utilizadas em todo seu potencial. Surgem e

se disseminam destituídas da sua verdadeira

eficácia, importância e amplitude.

Contudo, percebemos que atualmente as

Relações Públicas voltam a inserir-se nas

grandes questões contemporâneas. Fala-se

de uma revivescência da profissão a partir

do fortalecimento dos movimentos sociais de

demanda especializada, tão bem representados

pelas ONG’s e demais grupos e associações

pertencentes à sociedade civil. De

fato, com a constatação do fortalecimento

da chamada “sociedade do espetáculo”, onde

a prestação de contas para com a opinião

pública é preterida em favor do impacto e

visibilidade meramente publicitários, geralmente

pertencentes a processo de espetacularização

e estetização28 do cotidiano, surge

o receio das Relações Públicas regredirem

para seu estágio inicial, quando a profissão

estava ainda voltada para a fabricação de

uma imagem favorável – quase sempre de

forma falaciosa e fraudulenta – de pessoas e

instituições, sem possuir uma proposta ver-

28 Ver BAUDRILLARD, Jean. A sociedade do

consumo. Lisboa: Edições 70, 1995.

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16 Júlio Afonso Sá de Pinho Neto

dadeira e consistente de diálogo, consenso,

negociação, compromisso ético e conciliação

de interesses entre partes divergentes.

Vivemos uma crise da política, com o

conseqüente enfraquecimento dos sindicatos,

dos partidos políticos, do parlamento e

das práticas associativistas de diferentes naturezas.

Contudo, o horizonte otimista para

o crescimento e a expansão das Relações Públicas

reside no fortalecimento e expansão

do chamado terceiro setor, que nem por isso

deixa de revelar e frisar a função política da

profissão. Pelo contrário, pois é exatamente

– não deixando de admitir um conjunto de

ressalvas e críticas – onde se faz cada vez

mais necessário o desenvolvimento de uma

consciência política através do exercício da

cidadania, da articulação social, do estímulo

a práticas que privilegiem a busca do consenso

e as decisões colegiadas, parecem abrir

portas para o exercício da profissão de RRPP,

preservando a sua essência verdadeiramente

política.

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