Letícia Fagundes
Versatilidade é a palavra-chave para este
profissional. Conceitos como alianças estratégicas, mediação de
conflitos, gerenciamento de crises, construção de reputação e
identidade certamente são alguns dos mais usados na área. "Nós
encontramos o nosso espaço para trabalhar com a retomada do viés do
planejamento estratégico da Comunicação", afirma Júlio Barbosa,
presidente da ABRP - Associação Brasileira de Relações Públicas.
Segundo
Barbosa, o profissional de RP está começando a ser compreendido agora.
"Até pouco tempo, ninguém entendia o que fazia um RP. Falavam: 'ah,
você faz festinha?'", brinca ele. Isso porque a profissão lida com
algo nada palpável, difícil de ser realmente explicado de modo
prático.
A grande virada para a profissão de Relações Públicas, no Brasil,
aconteceu na década de 1980. "O RP começou fazendo assessoria de
imprensa, porque, naquela época, jornalista que fazia assessoria de
imprensa era rechaçado por todos os colegas. Abraçamos a função, mas
logo descobrimos que não bastava fazer assessoria. Você tem de pensar
em planejamento de comunicação com visão em todos os públicos. A gente
começa a falar em comunicação organizada e estruturada. É aí que as
corporações começam a pensar: como eu planejo minha imagem?",
continua o especialista, garantindo que, nos Estados Unidos, as
grandes empresas já tinham esse pensamento desde a década de 1960.
A globalização, a agilidade da informação e a alta tecnologia são
fatores que levaram ao fortalecimento do RP, que se situou e soube
"tomar o seu espaço" definitivamente no final da década de 90 e início
dos anos 2000. "As empresas têm de se preocupar. A informação antes
sonegada hoje está em tempo real na Internet. Uma reputação manchada,
para ser reconquistada, são anos e anos. Então, aqueles que têm boa
reputação hoje jogam pesado para mantê-la. E quem vai fazer isso? O RP.",
conclui.
A relações públicas Carolina Salvo concorda que o RP foi, por
muito tempo, um profissional sem definição, não entendido pela
sociedade e pelas empresas. "Eu via como as agências encontravam
dificuldades para que os clientes entendessem até mesmo o papel das
Relações Públicas no trabalho de sua imagem. O conceito de RP ainda
está se adaptando no Brasil. Imagine há oito anos, quando comecei!"
Trabalhando como coordenadora de Comunicação do Instituto
Baccarelli, Carolina alcançou vasta experiência depois de ter
passado por muitas agências e de ter atendido clientes com diferentes
perfis, como Melitta e o laboratório Pharmacia & Upjohn
(hoje Pfizer), além de uma pequena agência de turismo e um
escritório de arquitetura. "Logo de cara eu tomei contato com
clientes de segmentos bastante diferentes. Tive de ler sobre os
assuntos de interesse de cada um para estar sempre informada. E isso
foi ótimo! Ampliei muito meus
conhecimentos gerais e pude comparar como cada um desses segmentos
se relaciona com seus públicos."
Foi com essa bagagem que encontrou o que mais gostava de fazer dentro
do amplo universo de RP: o setor cultural e de responsabilidade
social. "Nosso papel aqui no Instituto é desenvolver o plano de
comunicação de forma a apoiar a captação de recursos, estimular a
relação entre a organização e a comunidade de Heliópolis, manter um
bom relacionamento com parceiros e patrocinadores, cuidar do
relacionamento com a imprensa, divulgando sempre que possível a missão
do Instituto para que novas ações como essa se multipliquem pelo
País."
MERCADO AQUECIDO
Relações Públicas é a sétima profissão – e a única da área de Humanas
– que mais crescerá nos próximos 10 anos, segundo estudo feito em 2005
pelo instituto norte-americano Bureau Labor Statistics. "A
profissão se fortaleceu muito. O mercado está muito agitado e a
profissão tem uma inserção muito próxima daquilo que pode oferecer",
informa Tânia Baitello, coordenadora do curso de RP da
Faculdade Cásper Líbero.
Atualmente, existem no Brasil 22 cursos. Só em São Paulo, formam-se
por ano cerca de 700 relações públicas - um número que o mercado
abriga facilmente. "O Brasil é um campo fértil. O volume de demanda
que você tem no mercado é muito grande. Nos últimos anos, a gente tem
um aumento de 100%. O mercado está abrangindo todo mundo", diz
Júlio Barbosa.
Carolina também não tem dúvidas da projeção da profissão. "Há
muitos campos para atuação. Com interesse para pesquisar e uma boa
orientação na faculdade, além de cursos de extensão e idiomas, as
chances de um bom emprego aumentam bastante. Veja só: podemos
encontrar desde profissionais de RP responsáveis pela comunicação
interna dentro de departamentos de RH até lobistas, passando por
assessores de imprensa, organizadores de eventos, gerentes de
atendimento ao consumidor e coordenadores de comunicação em grandes
empresas."
COMO SE TORNAR UM RELAÇÕES PÚBLICAS
Logicamente, o primeiro passo é escolher uma boa faculdade. Segundo
Tânia Baitello, em um bom curso o aluno sai muito preparado para
enfrentar o mercado de trabalho. "Nós não acreditamos num
profissional vazio. Então, eu não vou formar aqui um técnico
funcionalista, ou seja, aquele que sabe fazer. Ele precisa saber o
antes. Nós damos muita importância para a teoria, conceituação,
fundamentação. Sem isso, você não vai conseguir fazer um planejamento
de comunicação eficaz e assertivo. O sucesso é conseguir o equilíbrio
entre a prática e teoria. Os cursos devem formar um estrategista de
comunicação."
O
segundo ponto importante, claro, é saber se você tem aptidão para a
área. Nesse caso, Tânia é enfática: "Para entrar nesse universo,
tem de ser uma pessoa muito ligada no mundo, muito a par de tudo, e
isso significa muita leitura e uma enorme capacidade de compreensão
das coisas. Tem de procurar um bom curso, um vestibular concorrido,
porque isso vai fazer a diferença. Tem muito curso ruim. A pessoa
também tem de, obrigatoriamente, falar inglês. E, acima de tudo,
gostar de gente."
Paulo Roitberg já está seguindo as dicas. Depois de se
aventurar nos cursos de Engenharia e Medicina, ele está no segundo ano
de Relações Públicas, área em que afirma ter realmente se encontrado.
"Eu percebi que minha vocação era trabalhar com gente, era me
comunicar. Eu estou muito empolgado com a profissão.". E ele deixa
o conselho para quem quer seguir o mesmo caminho: "Estude muito
atualidades. Tem de estar atualizado, ler muito. Isso vai fazer a
diferença, vai incrementar a sua cultura e vai ajudar muito na
profissão."