Gestão de crises está em novo
paradigma
31/03/2009 - 08:31:25
POR RODRIGO COGO
Uma crise pode afetar ou
destruir a reputação, a imagem,
o clima organizacional, a
confiança de clientes e a
credibilidade de uma empresa ou
instituição por vários anos.
Pode também afetar resultados
econômicos e financeiros, assim
como trazer prejuízos
profissionais. Um planejamento
empresarial que inclua o
Gerenciamento e a Comunicação de
Crises nas empresas é hoje uma
exigência da economia
globalizada e apresentam demanda
crescente na Europa e USA. Sua
importância estratégica, na
opinião do jornalista Waltemir
de Melo, pode ser atribuída à
valorização que a opinião
pública tem dado às questões
comportamentais, à ética
empresarial, ao respeito aos
valores sociais e à
possibilidade da quantificação
econômico/financeira das crises
mal administradas. Ele ministrou
aula na disciplina Seminários
Especiais no dia 11 de março de
2009, dentro da grade do Curso
de Especialização em Gestão
Estratégica em Comunicação
Organizacional e Relações
Públicas/GestCorp da Escola de
Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo.
O conceito de crise no passado
cercava a idéia dos grandes
acidentes, mas nos últimos 10
anos este paradigma foi
alterado. Agora, de acordo com o
especialista, abrange vários
outros impactos, inclusive de
pequena escala, mas que
interferem na gestão da
reputação. O avanço tecnológico
é um dos grandes
impulsionadores, porque pela
internet há a possibilidade de
rápida repercussão pública dos
fatos por qualquer pessoa. Desse
modo, a vulnerabilidade para
pessoas e organizações é muito
maior. O novo conceito de crise
reconhece que toda ação interna
ou externa pode impactar direta
ou indiretamente na harmonia e
nos interesses de uma
organização com públicos
preferenciais. A crise de
imagem, por sua vez, se
constitui num conjunto de
eventos que podem atingir o
patrimônio mais importante de
qualquer entidade ou
personalidade: a credibilidade,
a confiabilidade e a reputação.
“O trabalho é criar um cordão de
isolamento e proteger este
tripé”, resume Melo, e isto
feito a toda constelação de
públicos, cuja opinião precisa
ser pesquisada e monitorada.
O ambiente de negócios é a base
do trabalho de relacionamento,
percebendo contextos
comportamentais, cenários
concorrenciais, articulações e
pressões sociais, ambientação
política e regulatória. Tudo
aliado ao clima interno de
engajamento. Entre os aspectos
que conduzem a uma crise, ele
cita os passivos ou acidentes
ambientais; fusões, aquisições e
fechamento de fábricas;
instalações obsoletas e
precárias; produtos com
problemas ou uso de insumos
polêmicos; investimentos
inadequados; sabotagens em
instalações e produtos;
acidentes de trabalho; fraudes
administrativas e fiscais. De
toda maneira, não são raros os
boatos deflagrados por ações
predatórias da concorrência. E,
independente da fonte, os
efeitos negativos geram perda de
acionistas ou de funcionários
estratégicos, queda de
produtividade, descrédito junto
a clientes e mobilização
sindical. O jornalista assinala
que vai sempre haver
deterioração de imagem, afora
questões econômicas por eventual
interrupção temporária de
negócios. Em geral, exige
disponibilidade de recursos
humanos, materiais e financeiros
para situações imprevistas.
Nas crises, sugere-se que haja
uma disseminação de valores da
organização, aprimorando
relacionamento com públicos
prioritários para também
aumentar a sinergia interna
entre áreas e pessoas. A idéia é
tirar algum proveito da crise,
nem que seja a consciência sobre
a necessidade de prevenção,
antecipação e treinamento. A
visão estratégica permite um
posicionamento diante dos
momentos de crise, porque
instrumentos como a definição de
missão, visão e valores
viabilizam uma linha de conduta
já preparada para decisões que
sejam mesmo urgentes e não
estejam em desacordo com os
princípios éticos. Nesta
perspectiva, ele identifica três
maneiras de atuar na crise:
fingir que nada existe ou nada
sabe; saber dos problemas e
preparar-se para agir; e
preparar-se de forma adequada e
antecipada, adiantando problemas
potenciais internos e externos.
POSTURAS – Durante uma
crise, Waltemir comenta que é
possível ver várias posturas no
meio empresarial, como de
vítima, pró-ativa, socialmente
responsável, displiscente,
intransigente, negligente ou
mediadora, e cada uma ocasiona
um tipo de percepção dos
públicos. Às vezes, as empresas
assumem uma atitude de silêncio,
pretendendo que o tema caia no
esquecimento ou seja por isto
minimizado. É comum também a
atitude de negação de
responsabilidade para colocar
dúvidas na opinião pública e
partir para um processo de
transferência de culpa. Não raro
há atitudes de contra-ataque,
levantando suspeitas sobre a
credibilidade dos denunciantes.
Ele acredita que a atitude de
confissão é um bom caminho,
porque é uma tentativa de
finalizar a polêmica e partir
para a solução. Tem ainda a
atitude legalista, sugerida
pelos advogados, e a atitude de
discrição controlada. “Nenhuma
das opções pode ser vista como
errada, mas a verdade e a
transparência nunca deveriam ser
abandonadas”, opina.
O palestrante acredita que
comunicadores e advogados são os
únicos sujeitos indicados para
cuidar de crises nas
organizações, mas reconhece
haver grandes dilemas entre as
duas áreas pelo diferente
entendimento da situação e dos
possíveis desmembramentos. De
toda forma, a política de
administração de crises deve ser
um dos elementos estratégicos
pensando na continuidade do
negócio. Por isso, resumir o
gerenciamento a questões de
imagem é equivocado, porque
ainda há problemas com
processos, gestão de negócio ou
recursos humanos, que na maioria
dos casos são a verdadeira fonte
de crises. Sugere então elaborar
um Programa Preventivo para
Administração de Crises, onde a
elaboração de um manual é
ferramenta básica. O manual deve
conter antecedentes de crises,
definições, princípios gerais e
conceitos operacionais, comitê
com cargos, atribuições e
cronogramas, procedimentos de
notificação da crise, plano de
implantação por tipo de crise,
contato pessoal dos dirigentes,
nomes de jornalistas
especializados para cada crise,
inventário dos meios de
comunicação interna, modelos de
textos e comunicados (primeira e
segunda versões para cada
procedimento de resposta),
perguntas e respostas para temas
mais críticos, recomendações
gerais. É recomendável que
cópias do manual estejam
disponíveis em vários locais, e
que versões de seu conteúdo
sejam adequadas para públicos
preferenciais internos e
externos.
Entre as etapas do trabalho
preventivo, não pode ser
esquecida a análise de risco, um
mapeamento das vulnerabilidades
e crises potenciais em todos os
níveis. Parte-se então para a
análise de impacto nos negócios
com determinação das prioridades
para a recuperação. Uma vez
definidas as gravidades, vêm as
prioridades de ataque e
simulação com um Plano de Ação,
que é checado em cada área
interna antes da fase de
treinamento dos procedimentos
das equipes e checagem com
exercícios e testes. O consultor
ainda explica a pertinência de
um ciclo PDCA (Plan – Do – Check
– Action) de Controles e
Processos. De maneira geral, ele
entende que as crises são
previsíveis e se desenvolvem de
forma semelhante, o que
contribui para a intenção de
normatização dos passos. É
preciso compreender que a
percepção da opinião pública
sobre como uma empresa gerencia
um problema conta praticamente
mais que os próprios fatos.
“Erros e arrogância obscurecem
ações propositivas, e
inviabilizam as mensagens
positivas posteriores”, conclui.
EXPERIÊNCIA - Waltemir é
graduado em jornalismo pela
Faculdade de Comunicação Social
Cásper Líbero. Possui
especialização em Business
Continuity Plan (managing,
developing and testing) e
Business Communication
Tecnologies pelo DRI
International da IBM em
Chicago/EUA. É Certificado pela
International Air Transport
Association/IATA em Airline
Emergency Planning & Response
Mangement. Possui formação nas
áreas da ISO 14.000, ISO 9002,
ISO 18.000 e ISO 17.799. É
consultor, professor e sócio da
CWM Comunicação, empresa
especializada em programas
preventivos de administração de
crises, de comunicação de riscos
e construção de imagens
corporativas. Em mais de 20 anos
de experiência na área de
comunicação empresarial, atendeu
clientes como Andrade Gutierrez,
Arafértil Fertilizantes e
Produtos Químicos, Bancos
Bandeirantes e BMG, Chrysler
Corporation/Marca Jeep, CETESB -
Companhia de Tecnologia de
Saneamento Ambiental, Close - Up
of Japan/Grupo Mitsui, Éffem
Produtos Alimentícios/Grupo Mars,
Kimberly Clark Brasil,
McDonald's, Philips do Brasil e
Telefônica, entre outros.
A palestra apresentou vários
exemplos de impasses vividos por
organizações mundiais, como no
caso da Parmalat, Opportunity,
Tylenol, Microvlar, balas Van
Mele e até sobre o transporte de
familiares do Presidente Lula
por avião oficial. A organização
dos Seminários é do GestCorp,
coordenado pela professora
Margarida Kunsch. Uma das
publicações do curso é a Revista
Organicom (www.revistaorganicom.org.br),
que na edição número seis trouxe
um dossiê sobre “Comunicação de
risco e crise – prevenção e
gerenciamento”, com artigo do
próprio Waltemir de Melo e
textos de outros profissionais e
pesquisadores como Jorge Duarte,
Roberto Coda, Eduardo Prestes e
Mateus Furlanetto. Para mais
informações, acesse
www.eca.usp.br/gestcorp ou entre
em contato pelo email gestcorp@eca.usp.br
ou pelo fone 11-3091-4224.
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