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Rede exige equilíbrio nas linguagens
coloquial e corporativa
08/04/2009 - 08:27:10
POR RODRIGO COGO
O
conhecimento é como uma esfera, cujo aumento de volume coloca
mais pontos de contato com o desconhecido e com mais
interagentes. Hoje, a comunicação ganha um ar de virtualidade,
ainda que mesclado com o real, transitando entre átomos e bytes,
entre o palpável e o simbólico, o que traz ainda maiores
desafios para os comunicadores. Este panorama foi um dos temas
tratados na Conferência de Portais Corporativos da International
Business Communications/IBC, integrante do Informa Group,
realizada entre os dias 24 e 26 de março de 2009 no Hotel
Pergamon em São Paulo/SP.
A análise é de Carlos Seabra, diretor de Tecnologia do Instituto
de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicas/IPSO, que destaca
haver “uma imensidade de desafios na tarefa de produzir e gerir
conhecimento”, acrescentando que o mundo da mobilidade,
sobremaneira com os celulares, traz uma nova preocupação na
adequação de formato e conteúdo. A gestão editorial é um
processo que se mantém fundamental mesmo em tempos de
descentralização da produção de conteúdo, porque do contrário se
corre o risco de um empobrecimento dos discursos e reflexões,
pelo tipo de participação que se vê nas redes sociais. De todo
modo, reconhece que nunca houve tantas pessoas como agentes da
comunicação escrita, com diferentes tipos de linguagem, o que
seria bastante positivo. Aliás, para ele aparecem aí inúmeros
elementos inibidores da expressão, como a falta de domínio da
gramática ou até do raciocínio lógico. E acresce: “vamos de uma
extrema informalidade na linguagem coloquial, para um extremo
formalismo na linguagem oficial corporativa. Temos que achar um
equilíbrio”. E lembra que a qualidade dos processos, inclusive
nas certificações ISO, é escrever o que se faz e fazer o que se
escreve, mostrando a força da capacidade de comunicação que
precisa ser desenvolvida para todos os níveis hierárquicos.
Seabra pontua, somente, que a linha entre política editorial e
censura é tênue e merece muita atenção.
Outro ponto no mundo dos portais que representa novas exigências
aos profissionais é o monitoramento contínuo dos usos, e também
a organização de seus arquivos e acessos por links. Ele sugere
cuidado com o exagero nos hiperlinks, porque o resultado final
pode ser a dispersão do leitor, e não a atribuição de poder de
escolha de ordens de leitura. O exercício de realizar
treinamentos para inserção de profissionais nas redes sociais,
por meio da abertura de acesso nas empresas ao Orkut, a blogs
pessoais e ao MSN, mesmo que tratando de temas não corporativos,
é o melhor caminho na opinião do pesquisador. Esta pessoa cria
familiaridade, identidade e apreço com os canais e depois fica
muito mais suscetível a incorporar os meios para produção
institucional. “As pessoas escrevem bem quando leem muito. Além
disto, quando praticam bastante. Mas o letramento nem sempre
produz bons comunicadores”, alerta para demonstrar a
complexidade do tema.
INTRANET – Gisele Martins, coordenadora de Comunicação Interna
da Ultragaz, falou da experiência com a intranet criada em 2006.
Sua empresa tem 70 anos e é líder e pioneira na distribuição de
gás LP no Brasil, sendo a sexta maior empresa da área no mundo.
Tem quatro mil funcionários e, através de 4.200 revendas,
comercializa por mês sete milhões de botijões. A área de
comunicação interna é subordinada ao setor de Recursos Humanos e
o canal faz parte de um mix mais amplo de instrumentos impressos
e eletrônicos. Na origem, a intranet era vista como um portal de
passagem para outros sites, com informação desalinhada e
desatualizada, ferramenta de conteúdo limitada, dada a falta de
cultura de acesso à rede. A renovação iniciou pelo estudo do
perfil de público em nível hierárquico e faixa etária,
transformando a plataforma numa fonte única para busca de
informações consideradas confiáveis e eficientes, gestão de
conhecimento e serviços integrados, integrando todas as unidades
administrativas.
Gisele comenta que teve como premissas básicas o aumento da
eficácia e produtividade, garantia de agilidade e
descentralização na tomada de decisões e prioridade a áreas,
serviços e públicos com suas demandas mais imediatas.
Articularam, assim, uma espécie de concorrência entre 11
fornecedores (analisando história, clientes, referências,
descrição de serviços, orçamento, funcionalidade). Em trabalho
conjunto com o Marketing, que é a área responsável pela
internet, conheceram trabalhos de outras organizações, a partir
do agendamento direto de visitas ou intermediado com clientes
dos fornecedores contratados. Após a escolha, organizaram uma
implantação em ondas, para dar respostas rápidas e efetuar
mudanças constantes com benefícios cumulativos, sem assustar o
usuário e gerar conflito. Um tutorial completo de realocação de
seções antigas e dos novos espaços criados foi feito, junto com
um help-desk permanente. Tudo era sustentado pela produção de
textos, imagens, documentos pela equipe e pela interação em
fóruns, chats e blogs. “O comprometimento das equipes para
geração de conteúdo é fundamental. É um novo conceito criativo
num novo momento digital”, acresce, informando que eram 25
responsáveis em cada uma das 20 áreas, gerando 500 páginas de
materiais.
A executiva ainda assinala que foi usado o recurso da TV flash,
com dinamismo de oferta de temas e manchetes e com atualização
constante, e aplicaram um menu dos sistemas internos em total
integração com o canal (gerenciamento de pessoal, logística, CRM
e outros). O lançamento da nova intranet envolveu cartazes,
envelopamento de elevadores, teasers e pop-up nos terminais.
Como aprendizagem do processo de renovação, ela cita os desafios
de fazer uma parceria com o setor de TI, selecionar de fato o
melhor fornecedor para desenvolvimento e gestão de conteúdo,
cumprir o cronograma evitando retrabalhos e pensar na
potencialização da interação através de novidades vindas nas
ondas subsequentes de implementações e aplicativos. Para evitar
a perda de conteúdo no processo, ela sugere manter o histórico
do planejamento, coleta e organização dos dados dentro da
empresa, e não com um fornecedor externo que pode mudar e levar
junto a inteligência em andamento. O preenchimento dos espaços
depende da motivação da equipe, frequentemente tímidas ou
inabilitadas à plena participação, sempre sob orientação
criativa do setor de Comunicação. A idéia do gerenciamento das
ondas em implantação precisa ser compreendida e desenvolvida com
transparência, informando e negociando as possibilidades atuais
e futuras.
Na Ultragaz, a experiência da construção conjunta de intranet e
extranet garantiu sincronismo tecnológico, padronização visual,
melhor distribuição de custos e alinhamento total de abordagem e
estilo. A coordenadora somente alerta para a disputa interna de
atenção do fornecedor, porque as equipes estavam em níveis
diferentes de formatação dos conteúdos e possuem linguagens
muito distintas. A segunda onda do trabalho vem com a
implementação de novas funcionalidades, como blogs, fóruns e MSN
acessíveis pela página, além do monitoramento de uso das seções
disponibilizadas para embasar a edição e a divulgação. A
terceira onda virá com a gestão do conhecimento e o webtraining.
“O ambiente eletrônico deve ser o reflexo real da empresa, em
constante aperfeiçoamento, com equipes unidas pelo objetivo de
comunicar bem”, finaliza.
INTEGRAÇÃO – Pois esta noção de integração é a tônica da ação
web da Perdigão, empresa brasileira que emprega mais de 55 mil
funcionários em suas quatro fábricas e 27 centros de
distribuição, além de exportar para 100 países. O publicitário
Alex Toledo, coordenador do Comitê de Internet, relembra o
primeiro portal em 1997 e o período em que as áreas de Relações
com Investidores, Marketing, Recursos Humanos e Comércio
Exterior da companhia resolveram publicar conteúdos e manter um
espaço na rede de maneira independente e isolada, por volta de
2002. Somente dois anos depois a integração de sistemas, visual
e linguagem aconteceu, sendo criado este comitê interno de
governança para também ajudar na adequação a cada stakeholder.
Havia uma indefinição de objetivos e verbas e insatisfação com o
serviço de múltiplas agências externas. “A empresa tinha uma
cara multifacetada na internet, incapaz de transmitir a dimensão
do portfólio de produtos, marcas e serviços. Era preciso um novo
realinhamento estético e funcional”, manifesta.
Um dos métodos foi nomear gerenciadores internos de conteúdo,
que inclusive colaboram em situações de emergência. Foi
explorada a linguagem multimídia, fortalecendo a marca com
atributos de inovação, também pelo aprimoramento da experiência
online do consumidor, numa demanda crescente. Houve um trabalho
de reordenamento de conteúdos dos sites que existiam nas
empresas adquiridas recentemente (Batavo, Elegê e outras),
unificando partes corporativas, como relações com investidores e
com a imprensa, a partir de uma inter-tela explicativa da função
dos negócios. As demais sessões ficaram temporariamente iguais,
até o alinhamento final do processo iniciado em 2009. |