
Entrevista
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UMA HISTÓRIA RECHEADA DE SUCESSO E
CORAGEM
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* Ana Paula Ruiz
Dizem
que quem é empreendedor nasce assim. É o caso de José
Eugênio Farina, presidente da Todeschini, eleita
pelo Guia Você S/A Exame como uma das 150 melhores
empresas para se trabalhar. Farina começou sua
caminhada profissional aos doze anos de idade, e desde
cedo investiu tempo e recursos em ações
empreendedoras, que fizeram de sua carreira um grande
sucesso. Há 33 anos à frente da Todeschini, um
empreendedor nato sem diploma universitário, ele mostra
que não tem medo de trabalho e que, mesmo sob condições
adversas – como no caso do acidente que destruiu a fábrica
em 1971 – sabe enfrentar as dificuldades e, mais do
que isso, superá-las. Das cinzas de 71, Farina
reconstruiu uma empresa pioneira no setor de produção
de móveis componíveis para cozinha. A Todeschini
chegou a faturar 190 milhões de reais em 2003.
Além da dedicação do presidente, o que se destaca na
empresa também é a forma de gestão utilizada na fábrica,
que já rendeu a Farina o prêmio Top de Recursos
Humanos 2004, concedido pela ADVB - Associação dos
Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil.
A Todeschini, empresa gaúcha localizada no município
de Bento Gonçalves (RS), começou como uma fábrica de
instrumentos musicais e hoje é a maior fabricante de móveis
da América Latina. Trata-se também de uma das empresas
que mais se destacam em responsabilidade social no
Brasil.
José Eugênio Farina conversou com o newsletter Carreira
& Sucesso e contou essa história de sucesso:
Carreira & Sucesso: Você começou a trabalhar
ainda muito jovem. Quais empregos você já teve?
José Eugênio Farina: Realmente, comecei a
trabalhar muito jovem, com apenas 12 anos de idade. Meu
primeiro emprego foi numa farmácia e o segundo num
armazém de secos e molhados, sempre como balconista.
Depois mudei de ramo de atuação e fui trabalhar numa
agência e mecânica de automóveis, a Ruga Morch. Lá
passei por vários departamentos. Ao final de um ano,
por conta da minha boa atuação, o proprietário me
ofereceu uma bonificação em dinheiro. Sabe o que eu
fiz? Troquei o prêmio por uma parte da empresa, uma espécie
de sociedade.
C&S: Então este seu espírito empreendedor
existe desde cedo... É nato.
JE: Pois é, acho que é isso. E justamente
por ter este espírito empreendedor é que depois de um
tempo eu deixei a Ruga Morch e fundei a Metalúrgica
Bento Gonçalves, da qual também me desfiz alguns anos
mais tarde para atuar como diretor da Metalúrgica
Farina. Em 1969, desliguei-me da Farina e utilizei meu
capital para a compra de ações da Todeschini, que na
época fabricava instrumentos musicais. Foi assim que
comecei aqui na empresa...
C&S: Nossa, então você teve uma empresa que
fabricava instrumentos musicais? E o que fez com que você
mudasse de produto? Por que fabricar móveis?
JE: Bom, eu já tinha uma certa experiência
como proprietário da Ruga Morch, da Metalúrgica Bento
Gonçalves e da Metalúrgica Farina. Adquiri ações da
Todeschini em 1971, e poucos dias após o meu ingresso,
a empresa sofreu um sinistro e foi totalmente destruída
pelo fogo. O fogo chegou numa sexta-feira 13 de agosto.
Nesta época, o acordeão – que era fabricado pela
Todeschini - já estava em declínio. A moda da época
eram os Beatles e suas guitarras elétricas! Aí, como
eu tinha que recomeçar do zero, optei por um novo
produto. Saí pelo mercado perguntando às pessoas que
tipo de móvel era o mais difícil de ser produzido;
elas eram unânimes ao responder: a cozinha! Foi aí que
tomei a decisão: a Todeschini ia produzir cozinhas.
C&S: E como você conseguiu reconstruir tudo
depois do incêndio?
JE: Quando adquiri as ações da Todeschini
vendi todos os meus bens, inclusive o carro da minha
esposa (risos). Com o incêndio, fiquei absolutamente
sem nada! E eu tinha filhos pequenos e colaboradores que
dependiam da minha decisão para manterem seus empregos.
A opção por reconstruir a fábrica veio da minha força
de vontade, com o apoio da minha família, dos
colaboradores da empresa e da comunidade. Adquiri novas
máquinas que foram instaladas provisoriamente nos
pavilhões da Fenavinho, cedido pela Prefeitura, e
recomeçamos nossas atividades. Em paralelo à fabricação
de móveis, reconstruímos as instalações da fábrica
também... Antes do incêndio, tínhamos 513 funcionários.
A empresa não tinha seguro. Voltamos às atividades com
um grupo de 250 colaboradores.
C&S: Já na década de 80, a Todeschini assumiu a
liderança no ramo de fabricação de cozinhas
moduladas. Como isso aconteceu?
JE: A Todeschini foi a pioneira na produção de
cozinhas componíveis da América Latina. A opção pela
componibilidade se deu em função do crescimento
urbano, que trouxe a necessidade de otimização do espaço.
C&S: Na sua forma de gestão, como você enxerga
seus colaboradores?
JE: A empresa passou por um sensível processo de
mudança no início da década de 90. Foi uma mudança física
- o escritório passou a ser totalmente aberto, ou seja,
sem paredes -, estrutural - os níveis hierárquicos
foram reduzidos – e, principalmente, cultural. Por
causa desta mudança, instituímos o Siste – Sistema
Todeschini de Excelência. A administração passou a
ser participativa e criamos novos mecanismos de
compartilhamento do sucesso. O ser humano foi destacado
como o diferencial competitivo da empresa. A nossa gestão
é trabalhada de forma a promover o bem-estar e a
qualidade de vida dos nossos colaboradores. Nossa política
é ter poucas pessoas em nosso quadro funcional, porém,
todas qualificadas, motivadas e bem pagas. A idealização
deste projeto nasceu quando eu fazia uma viagem com
alguns executivos da empresa ao Japão. Fomos para lá
com esta idéia na cabeça, e voltamos com a certeza do
que era necessário para alcançar os resultados
almejados.
C&S: Na prática, como funciona o Siste?
JE: Trata-se de uma forma de gestão em que o ser
humano é o destaque. Para isso, criamos um modelo de
gestão participativa em que todos os nossos
colaboradores foram divididos em grupos de trabalho.
Estes grupos têm a função de sugerir e implantar idéias,
se reunindo uma vez por semana para trocar idéias,
durante o horário de expediente. Assim, todos os
colaboradores participam do processo administrativo da
empresa!
C&S: E o que a empresa faz para manter este clima
de harmonia entre os funcionários?
JE: Para compartilhar o sucesso das idéias
implantadas e divulgadas pelo Siste, criamos a libra
sisterlina, uma moeda interna para remunerar os grupos
pelas idéias implantadas. Fora isso, a empresa
beneficia os colaboradores com um salário indexado à
inflação, uma política de remuneração 10% acima da
média de mercado, empréstimos pessoais de até três
vezes o valor do salário e devolução parcelada em 12
vezes a juros de poupança; opções de lazer concedidas
gratuitamente ao colaborador e a sua família (salão de
festas, área de vivência, ginásio e fazenda),
alimentação (restaurante na própria empresa com subsídio
de 80% do valor da refeição e três opções de cardápio,
café da manhã, lanche e café), sacola semanal com
produtos básicos de alimentação e produtos de higiene
e limpeza concedida a todos os colaboradores que não
faltarem ao trabalho, subsídio de até 80% para cursos
de graduação e pós-graduação e 100% para cursos de
informática básica e de idiomas ou outros cursos
necessários para o desempenho da função do
colaborador, comunicação transparente, recrutamento
interno, ambiente administrativo completamente aberto,
avaliação de desempenho semestral de todos os
colaboradores, avaliação 360º anual para
colaboradores dos níveis de supervisão, gerência e
direção e disponibilidade de todos os números da
empresa a todos os colaboradores.
C&S: Há algum plano de carreira dentro da
empresa?
JE: Sim. A empresa possui um programa denominado
Vamos Crescer Juntos, que mantém disponível para
consulta a descrição das funções, o nível de
escolaridade e os cursos necessários para o desempenho
de cada um dos cargos da empresa. Desta forma, o
colaborador pode planejar a sua carreira na empresa. Além
disso, a Todeschini pratica o recrutamento interno, como
já citei anteriormente. Cerca de 50% das nossas vagas são
preenchidas internamente; damos oportunidades de
crescimento aos nossos colaboradores. O auxílio escolar
de até 80% para cursos de graduação e pós-graduação
também é um impulsionador do plano de carreira.
C&S: Qual é o tipo de profissional que vocês
buscam?
JE: Pessoas que sabem e que gostam de trabalhar
em equipe, que têm vontade de crescer junto à empresa
e que sejam responsáveis.
"Acredito que há males que vêm para o bem.
Quando Deus olhou para baixo e meu deu a condição de
reconstruir tudo, eu mudei totalmente. Sempre tive
confiança e fé em Deus. Sempre acreditei que aquele
que faz o bem só pode receber o retorno com juros. Tudo
o que você faz honestamente, com um princípio humano,
terá sucesso. Trabalhamos para realizar nossos sonhos.
Vivo para a família e para a empresa, mas sem exageros.
Aprendi a ter humildade. Meus colaboradores me ensinaram
que a felicidade não vem da grandeza e nem do dinheiro.
Vem do bem-estar de trabalhar com quem a gente
ama."
José Eugênio Farina
Presidente
Todeschini
* Ana Paula
Ruiz é jornalista do Grupo Catho. Telefone: (11)
3177-0739. |

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