20 de janeiro de 2005 263ª EDIÇÃO EDIÇÃO SEMANAL

    Entrevista
    UMA HISTÓRIA RECHEADA DE SUCESSO E CORAGEM


    * Ana Paula Ruiz

    Dizem que quem é empreendedor nasce assim. É o caso de José Eugênio Farina, presidente da Todeschini, eleita pelo Guia Você S/A Exame como uma das 150 melhores empresas para se trabalhar. Farina começou sua caminhada profissional aos doze anos de idade, e desde cedo investiu tempo e recursos em ações empreendedoras, que fizeram de sua carreira um grande sucesso. Há 33 anos à frente da Todeschini, um empreendedor nato sem diploma universitário, ele mostra que não tem medo de trabalho e que, mesmo sob condições adversas – como no caso do acidente que destruiu a fábrica em 1971 – sabe enfrentar as dificuldades e, mais do que isso, superá-las. Das cinzas de 71, Farina reconstruiu uma empresa pioneira no setor de produção de móveis componíveis para cozinha. A Todeschini chegou a faturar 190 milhões de reais em 2003.

    Além da dedicação do presidente, o que se destaca na empresa também é a forma de gestão utilizada na fábrica, que já rendeu a Farina o prêmio Top de Recursos Humanos 2004, concedido pela ADVB - Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil.

    A Todeschini, empresa gaúcha localizada no município de Bento Gonçalves (RS), começou como uma fábrica de instrumentos musicais e hoje é a maior fabricante de móveis da América Latina. Trata-se também de uma das empresas que mais se destacam em responsabilidade social no Brasil.

    José Eugênio Farina conversou com o newsletter Carreira & Sucesso e contou essa história de sucesso:


    Carreira & Sucesso: Você começou a trabalhar ainda muito jovem. Quais empregos você já teve?

    José Eugênio Farina: Realmente, comecei a trabalhar muito jovem, com apenas 12 anos de idade. Meu primeiro emprego foi numa farmácia e o segundo num armazém de secos e molhados, sempre como balconista. Depois mudei de ramo de atuação e fui trabalhar numa agência e mecânica de automóveis, a Ruga Morch. Lá passei por vários departamentos. Ao final de um ano, por conta da minha boa atuação, o proprietário me ofereceu uma bonificação em dinheiro. Sabe o que eu fiz? Troquei o prêmio por uma parte da empresa, uma espécie de sociedade.

    C&S: Então este seu espírito empreendedor existe desde cedo... É nato.

    JE: Pois é, acho que é isso. E justamente por ter este espírito empreendedor é que depois de um tempo eu deixei a Ruga Morch e fundei a Metalúrgica Bento Gonçalves, da qual também me desfiz alguns anos mais tarde para atuar como diretor da Metalúrgica Farina. Em 1969, desliguei-me da Farina e utilizei meu capital para a compra de ações da Todeschini, que na época fabricava instrumentos musicais. Foi assim que comecei aqui na empresa...

    C&S: Nossa, então você teve uma empresa que fabricava instrumentos musicais? E o que fez com que você mudasse de produto? Por que fabricar móveis?

    JE: Bom, eu já tinha uma certa experiência como proprietário da Ruga Morch, da Metalúrgica Bento Gonçalves e da Metalúrgica Farina. Adquiri ações da Todeschini em 1971, e poucos dias após o meu ingresso, a empresa sofreu um sinistro e foi totalmente destruída pelo fogo. O fogo chegou numa sexta-feira 13 de agosto. Nesta época, o acordeão – que era fabricado pela Todeschini - já estava em declínio. A moda da época eram os Beatles e suas guitarras elétricas! Aí, como eu tinha que recomeçar do zero, optei por um novo produto. Saí pelo mercado perguntando às pessoas que tipo de móvel era o mais difícil de ser produzido; elas eram unânimes ao responder: a cozinha! Foi aí que tomei a decisão: a Todeschini ia produzir cozinhas.

    C&S: E como você conseguiu reconstruir tudo depois do incêndio?

    JE: Quando adquiri as ações da Todeschini vendi todos os meus bens, inclusive o carro da minha esposa (risos). Com o incêndio, fiquei absolutamente sem nada! E eu tinha filhos pequenos e colaboradores que dependiam da minha decisão para manterem seus empregos. A opção por reconstruir a fábrica veio da minha força de vontade, com o apoio da minha família, dos colaboradores da empresa e da comunidade. Adquiri novas máquinas que foram instaladas provisoriamente nos pavilhões da Fenavinho, cedido pela Prefeitura, e recomeçamos nossas atividades. Em paralelo à fabricação de móveis, reconstruímos as instalações da fábrica também... Antes do incêndio, tínhamos 513 funcionários. A empresa não tinha seguro. Voltamos às atividades com um grupo de 250 colaboradores.

    C&S: Já na década de 80, a Todeschini assumiu a liderança no ramo de fabricação de cozinhas moduladas. Como isso aconteceu?

    JE:
    A Todeschini foi a pioneira na produção de cozinhas componíveis da América Latina. A opção pela componibilidade se deu em função do crescimento urbano, que trouxe a necessidade de otimização do espaço.

    C&S: Na sua forma de gestão, como você enxerga seus colaboradores?

    JE:
    A empresa passou por um sensível processo de mudança no início da década de 90. Foi uma mudança física - o escritório passou a ser totalmente aberto, ou seja, sem paredes -, estrutural - os níveis hierárquicos foram reduzidos – e, principalmente, cultural. Por causa desta mudança, instituímos o Siste – Sistema Todeschini de Excelência. A administração passou a ser participativa e criamos novos mecanismos de compartilhamento do sucesso. O ser humano foi destacado como o diferencial competitivo da empresa. A nossa gestão é trabalhada de forma a promover o bem-estar e a qualidade de vida dos nossos colaboradores. Nossa política é ter poucas pessoas em nosso quadro funcional, porém, todas qualificadas, motivadas e bem pagas. A idealização deste projeto nasceu quando eu fazia uma viagem com alguns executivos da empresa ao Japão. Fomos para lá com esta idéia na cabeça, e voltamos com a certeza do que era necessário para alcançar os resultados almejados.

    C&S: Na prática, como funciona o Siste?

    JE:
    Trata-se de uma forma de gestão em que o ser humano é o destaque. Para isso, criamos um modelo de gestão participativa em que todos os nossos colaboradores foram divididos em grupos de trabalho. Estes grupos têm a função de sugerir e implantar idéias, se reunindo uma vez por semana para trocar idéias, durante o horário de expediente. Assim, todos os colaboradores participam do processo administrativo da empresa!

    C&S: E o que a empresa faz para manter este clima de harmonia entre os funcionários?

    JE:
    Para compartilhar o sucesso das idéias implantadas e divulgadas pelo Siste, criamos a libra sisterlina, uma moeda interna para remunerar os grupos pelas idéias implantadas. Fora isso, a empresa beneficia os colaboradores com um salário indexado à inflação, uma política de remuneração 10% acima da média de mercado, empréstimos pessoais de até três vezes o valor do salário e devolução parcelada em 12 vezes a juros de poupança; opções de lazer concedidas gratuitamente ao colaborador e a sua família (salão de festas, área de vivência, ginásio e fazenda), alimentação (restaurante na própria empresa com subsídio de 80% do valor da refeição e três opções de cardápio, café da manhã, lanche e café), sacola semanal com produtos básicos de alimentação e produtos de higiene e limpeza concedida a todos os colaboradores que não faltarem ao trabalho, subsídio de até 80% para cursos de graduação e pós-graduação e 100% para cursos de informática básica e de idiomas ou outros cursos necessários para o desempenho da função do colaborador, comunicação transparente, recrutamento interno, ambiente administrativo completamente aberto, avaliação de desempenho semestral de todos os colaboradores, avaliação 360º anual para colaboradores dos níveis de supervisão, gerência e direção e disponibilidade de todos os números da empresa a todos os colaboradores.

    C&S: Há algum plano de carreira dentro da empresa?

    JE:
    Sim. A empresa possui um programa denominado Vamos Crescer Juntos, que mantém disponível para consulta a descrição das funções, o nível de escolaridade e os cursos necessários para o desempenho de cada um dos cargos da empresa. Desta forma, o colaborador pode planejar a sua carreira na empresa. Além disso, a Todeschini pratica o recrutamento interno, como já citei anteriormente. Cerca de 50% das nossas vagas são preenchidas internamente; damos oportunidades de crescimento aos nossos colaboradores. O auxílio escolar de até 80% para cursos de graduação e pós-graduação também é um impulsionador do plano de carreira.

    C&S: Qual é o tipo de profissional que vocês buscam?

    JE:
    Pessoas que sabem e que gostam de trabalhar em equipe, que têm vontade de crescer junto à empresa e que sejam responsáveis.


    "Acredito que há males que vêm para o bem. Quando Deus olhou para baixo e meu deu a condição de reconstruir tudo, eu mudei totalmente. Sempre tive confiança e fé em Deus. Sempre acreditei que aquele que faz o bem só pode receber o retorno com juros. Tudo o que você faz honestamente, com um princípio humano, terá sucesso. Trabalhamos para realizar nossos sonhos. Vivo para a família e para a empresa, mas sem exageros. Aprendi a ter humildade. Meus colaboradores me ensinaram que a felicidade não vem da grandeza e nem do dinheiro. Vem do bem-estar de trabalhar com quem a gente ama."
    José Eugênio Farina
    Presidente
    Todeschini




    * Ana Paula Ruiz é jornalista do Grupo Catho. Telefone: (11) 3177-0739.