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Os últimos meses de gravidez da
administradora de empresas Adriana Queiroz,
de 33 anos, foram de transformação. E não
apenas nos aspectos físico e emocional. Kika
— como Adriana é conhecida nos corredores da
Natura — quis também mudar
profissionalmente. Depois de três anos como
supervisora de e-commerce, ela precisava de
novos desafios. “A relação com meu chefe
sempre foi muito aberta e não hesitei em
comunicar minha intenção de mudar”, diz.
“Nem a gravidez me intimidou.” Num momento
em que a maioria das mulheres se sente
insegura no mundo corporativo, Kika estava
tranqüila o suficiente para iniciar as
negociações para trocar de função.
Enquanto esteve em casa cuidando da pequena
Tainá, hoje com 6 meses, seu currículo era
avaliado pelo departamento de RH. Duas
semanas antes de retornar ao trabalho, Kika
recebeu proposta para assumir a gerência de
duas linhas de produtos. Kika voltou dos
cinco meses de licença e férias diretamente
para o novo cargo. É por essa e (muitas)
outras políticas de gestão que a Natura foi
eleita a melhor empresa para a mulher
trabalhar no Brasil em 2003. O ranking é
inédito no país (veja lista completa na pág.
42) e se torna, a partir deste ano, parte
importante do Guia Exame – As Melhores
Empresas para Você Trabalhar. A seleção,
elaborada pelo Great Place to Work Institute
a pedido de Exame, foi feita com as 411
empresas que se inscreveram neste ano
(inclusive na categoria especial, de 100 a
199 funcionários) para a pesquisa que
resulta na lista das 100 melhores.
Obedecemos aos seguintes critérios (veja o
quadro “Os Passos da Escolha” para mais
detalhes):
1. Separamos as
empresas com pelo menos 35% de mulheres no
quadro de funcionários.
2. Feito isso,
olhamos aquelas onde elas têm média de
satisfação com o ambiente de trabalho
superior a 71 (numa escala de zero a 100).
3. As empresas que
preencheram os dois pré-requisitos
anteriores receberam uma análise profunda de
suas políticas e práticas específicas para o
público feminino.
4. Para elaborar o
ranking, foram dadas notas ponderadas à
quantidade relativa de mulheres em cargos
executivos; às práticas exclusivas (creche
no local de trabalho, por exemplo); e aos
comentários espontâneos dos funcionários
(homens e mulheres) sobre não-discriminação.
Para
encabeçar a lista, a Natura mostrou que não
encanta apenas as consumidoras com seus
cosméticos — ela dá um show também na sua
polítia interna. As oportunidades de
carreira são iguais para todos os
funcionários. As mulheres, aliás, ocupam 52%
dos cargos de liderança. Entre os
benefícios, destaque especial para a creche
na fábrica e para o apoio aos pais adotivos.
A Natura é exemplar, mas não está sozinha no
reconhecimento à sua força de trabalho
feminina. A lista das 40 Melhores Empresas
para a Mulher Trabalhar contempla
organizações de todos os setores e tamanhos.
Há grandes bancos, como Bradesco e Unibanco;
organizações do comércio, como Magazine
Luiza e Pão de Açúcar; indústrias, como
Intelbras e Kraft Foods; serviços, como
Redecard e Serasa; pequenas, como Unimed
Vales do Taquari e Rio Pardo e Livrarias
Curitiba.
Embora ainda ganhem 34% menos que os homens,
segundo pesquisa do Dieese, as mulheres
estão avançando no mundo corporativo. “Elas
dedicam mais tempo aos estudos que os homens
com os quais concorrem profissionalmente”,
explica Graça Ohana, coordenadora de
pesquisa do Dieese em Brasília. Os números
de mulheres nas faculdades mudam de acordo
com a cidade. Em Recife, por exemplo, das
profissionais economicamente ativas, 14,2%
estão cursando ou concluíram a faculdade.
Entre eles, o percentual é de 9,8%. Em São
Paulo, são 16,9% das mulheres ante 14,4% dos
homens. Segundo Graça, isso acontece porque,
na maioria das empresas, para concorrer à
mesma vaga, elas precisam ter um currículo
melhor do que o deles.
Valor para o diferente
As mulheres já andaram bastante na
hierarquia corporativa — mas estão longe de
alcançar os colegas. Na lista das 100
melhores empresas deste guia, 17% das vagas
executivas são ocupadas por profissionais do
sexo feminino. Entre as dez melhores, o
percentual é um pouco maior: 21%. “As
empresas que assumem uma postura positiva em
relação às mulheres estão contribuindo para
encurtar o caminho até a igualdade”, diz
Eliana Magalhães Graça, socióloga do Centro
Feminista de Estudos e Assessoria (CFemea),
de Brasília. Essa contribuição nem sempre é
sinônimo de grandes investimentos
financeiros. A Avon, concorrente da Natura
no setor de cosméticos, coloca um
ginecologista para atender suas funcionárias
na sede da empresa, em São Paulo. A consulta
pode ser até mesmo durante o expediente. Na
Intelbras, fábrica de centrais telefônicas,
de São José, em Santa Catarina, não se
comemora o Dia da Mulher, e sim a Semana da
Mulher. Nesses cinco dias, elas são
recebidas com tapete vermelho.
Na Bates do Brasil, agência de publicidade
com sede em São Paulo, os mimos são ainda
maiores. Dia 8 de março, elas ganham festa
no “clube das mulheres”, recebem flores,
champanhe e apoio na prevenção ao câncer de
mama e no controle da TPM.
Mimos são importantes (e todo mundo gosta),
mas as mulheres não dispensam oportunidades
iguais de crescimento. A Natura consegue
oferecer os dois lados dessa moeda. Uma
caminhada pelos corredores de sua sede, em
Cajamar, na Grande São Paulo, ajuda a
entender o porquê de a empresa estar no topo
do ranking. O clima é de descontração e tudo
parece ter sido pensado e repensado para
garantir bem-estar. Lá dentro, mulher não é
minoria. São 1 637, ou 62% do quadro de
empregados. “É uma empresa tão feminina que
estranhei no começo”, diz a paulistana
Rosangela de Oliveira, de 35 anos, há sete
trabalhando como auxiliar de operações na
fábrica de cremes. Antes, ela havia
trabalhado em siderúrgicas. “Tinha
desconfiança quando contavam que a gente
podia dizer tudo o que pensa, opinar até
sobre as questões de outros departamentos e
planejar nossa carreira aqui dentro”, diz.
“Demorou pelo menos um ano até eu perceber
que não era uma armadilha e que eu podia,
sim, me expressar livremente.”
Rosangela, como prefeita da fábrica em que
trabalha, é hoje o elo entre os empregados e
a direção. Leva reclamações de um, discute
propostas do outro. Dar a opinião sincera
faz parte de suas atribuições. É por esse
leva-e-traz de informações que a
administração fica sabendo das necessidades
de seus colaboradores. Foi assim que
descobriu, por exemplo, que algumas
funcionárias tinham vontade de adotar uma
criança, mas temiam o desgaste emocional e
burocrático do processo. Desde então, a
equipe de serviço social auxilia nos
trâmites oficiais. Após concluída a fase
legal, os pais adotivos recebem benefícios
idênticos aos dos pais de filhos legítimos.
Todos iguais
A Redecard, empresa de serviços na área de
cartões de crédito, segundo lugar no
ranking, toma ao pé da letra o conceito de
eqüidade. A única distinção entre os 666
funcionários (326 mulheres) está no trabalho
que cada um desenvolve. Todos os benefícios
são para todos os funcionários. Até o
auxílio-creche, que a lei só determina que
seja pago às mães, pode ser solicitado
também pelos pais. É política da Redecard,
por exemplo, não contratar substitutos para
as vagas de mulheres em licença-maternidade.
“Acreditamos que manter práticas especiais é
uma forma de discriminar”, explica Irélio
Frigo, vice-presidente de recursos humanos.
“E não fazemos nada aqui que não possa ser
executado por ambos os sexos.” A paulistana
Kátia Maragone Forjaz, de 29 anos, é um bom
exemplo de que nem todas as mulheres querem
ser tratadas de forma diferente dos homens.
Kátia entrou na Redecard há quatro anos,
depois de oito fora do mercado. “Parei de
trabalhar quando tive meu primeiro filho
porque achava impossível conciliar profissão
com maternidade”, diz. Na Redecard, Kátia
vem descobrindo que estava errada. Primeiro,
ela demonstrou interesse em deixar de ser
secretária para trabalhar com turismo e
hotelaria, sua formação acadêmica. Após uma
série de cursos apoiados pela empresa, Kátia
assumiu, há um ano e meio, a função de
executiva de contas na área desejada. Agora,
Kátia está grávida novamente. “O clima aqui
é tão saudável e nós somos tão respeitadas
que resolvi ter meu segundo filho.” E, dessa
vez, sem deixar o emprego. Com um detalhe:
Kátia continua no comando de projetos
importantes, participa de reuniões e só
reduz o expediente quando está indisposta.
“Aqui vi que é possível ser mãe e
profissional, desde que a empresa a
respeite.”
Tradicionalmente, por causa da família,
mulheres casadas têm dificuldade de fazer
carreira em empresas que exigem mudança
constante de cidade. No Magazine Luiza, por
exemplo, crescimento profissional está
invariavelmente ligado à transferência entre
as lojas espalhadas pelo interior de São
Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e
Paraná. Portanto, só os homens sobem, certo?
A paulista Cláudia Bernardo de Oliveira, de
28 anos, garante que não. Cláudia mudou de
endereço pela primeira vez em 1997, com
apenas dois anos de casada. “Na minha casa,
ao contrário do que acontece na maioria das
famílias, meu marido é quem precisa deixar o
emprego para me acompanhar”, diz a atual
gerente de loja em Santa Rita do Sapucaí
(MG), sua quinta cidade em oito anos. A
postura do marido, o contador Daniel
Bernardo de Oliveira, de 33 anos, foi
determinante. Ele aceitou o papel de tomar
conta do filho, Victor Hugo, enquanto
Cláudia trabalha. Mas a empresa também faz a
sua parte.
Além de pagar mudança e hotel para a família
nos primeiros meses, dá apoio psicológico a
todos. “Recebemos todo tipo de ajuda”, conta
Cláudia.
| Ranking
das 40 Melhores para Elas |
| 01. Natura |
Fersol |
| 02.Redecard |
Givaudan |
| 03. Magazine Luiza |
Ibmec |
| 04. McDonald´s |
Intelbras |
| 05. Credicard |
Ipiranga Química |
| 06. O Boticário |
Kraft Foods |
| 07. BankBoston |
Laboratórios Biosintética |
| 08. UNIMED |
Livrarias
Curitiba |
| 09. RM Sistemas |
Lojas Renner |
| 10. Herbarium |
Medley |
| Accor |
Nokia |
| Amazônia Celular |
Orbitall |
| AON |
Pão de Açúcar |
| Avon |
Real ABN AMRO |
| Bates |
Schering do Brasil |
| Bradesco |
Senac SP |
| Brasilcenter |
Serasa |
| BV Financeira |
Softway |
| Citibank |
Telemig Celular |
| Farmácia Roval |
Unibanco |
Veja
como foram selecionadas as melhores empresas
para a mulher trabalhar
Passos da escolha
Entenda como
foram selecionadas as melhores empresas para
a mulher trabalhar no Brasil
Para chegar à
lista das 40 melhores empresas para a mulher
trabalhar, foram analisadas as 411 inscritas
na pesquisa do Guia Exame — As Melhores
Empresas para Você Trabalhar, edição 2003.
Entre as 40 melhores para a mulher, somente
11 não estão nem no ranking das 100 nem na
categoria especial de 100 a 199
funcionários. A primeira seleção foi
quantitativa: ter mais de 35% de mulheres no
quadro e média de satisfação com o ambiente
de trabalho superior a 71% (numa escala de
zero a 100). A partir daí, foi feito um
check-up das empresas selecionadas.
Primeiro, pela porcentagem de mulheres em
posição de chefia. As empresas com até 25%
de executivas receberam 30 pontos; de 26% a
50%, 50 pontos; com 51% ou mais, o máximo de
100 pontos.
A mesma escala de pontos foi usada para dar
notas em relação à quantidade de mulheres no
quadro geral de funcionários, a partir do
mínimo de 35%. Depois, foi a vez dos
benefícios. Até três benefícios renderam 30
pontos. Com quatro ou cinco, 50 pontos.
Acima de cinco práticas, 100 pontos. A nota
final foi dada com base em quatro itens de
pesos distintos:
1. A satisfação das
mulheres com o ambiente de trabalho teve 60%
de peso.
2. Os comentários
espontâneos dos funcionários sobre
não-discriminação tiveram peso equivalente a
5%.
3. As práticas
apresentadas pela empresa específicas para
mulheres significaram 25% da nota.
4. Os 10% restantes
vieram da média ponderada de benefícios e do
número de mulheres em cargos de chefia.
Publicada no Guia Exame
- As Melhores Empresas para Você Trabalhar,
edição 2003 - fevereiro 2005 |